A esperança é o povo

A esperança é o povo

José Renato Nalini*

03 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A condição de pária ambiental tira qualquer credibilidade do governo federal assumir compromisso de “zerar desmatamento” até 2030. No ritmo que se imprimiu ao extermínio, o que restará daqui a oito anos? O projeto de “terra arrasada” está em pleno curso. Com estímulo enfático e pressa dos destruidores do futuro, pois temem uma improvável reação.

Ela poderia vir do Supremo Tribunal Federal, mas não virá. O guardião da Constituição já mostrou que não observa o princípio da vedação de retrocesso, que é um dos valores extraíveis do pacto fundante. Não fora assim e não teria reconhecido a recepção do que se convencionou chamar de “Código Florestal”, mas que em parte alguma do texto sequer menciona essa expressão. Retrocedeu-se até antes de 1934, pois este o marco para um Código Florestal que realmente protegia a cobertura vegetal deste continente. Depois disso, o STF tem deixado “passar a boiada”, como se fora mero observador e não tivesse nada com isso.

Na concepção imperial que está subjacente à consciência coletiva, embora louvável, o protagonismo dos governos subnacionais – Estados-membros e municípios – não parece hábil a gerar efeitos concretos. É animador ouvir que São Paulo fará um projeto de reflorestamento que procure suprir a ausência de árvores em número suficiente para garantir um ambiente saudável. De qualquer forma, basta verificar que no primeiro dia da COP-26, os governadores acenaram com aproximação necessária junto ao Ministro do Meio Ambiente. Aquele que pouco antes afirmara a posição do Brasil na reunião da ONU: exigir dos países ricos que pagassem para que nosso País viesse a observar a lei. Pois o artigo 225 da Constituição foi fruto do constituinte brasileiro. Ele é que, em nome do único titular da soberania, erigiu a mais bela norma fundante do século 20. Infelizmente, uma proclamação retórica, destituída de força cogente, pois flagrantemente vulnerada em todos os níveis.

A distopia brasileira é de uma evidência, que até criança consegue identificar aquilo que nos mantém num submundo da civilização. Mais de seiscentos e dez mil mortos pela COVID19, quando centenas de milhares poderiam ter sido salvos, houvesse responsabilidade por parte de quem é pago pelo povo para protegê-lo. Vinte milhões de brasileiros passando fome. Exibindo espetáculos como o ataque famélico a um caminhão que transportava ossos. O “pé de galinha” erigido à condição de ingrediente usual na gastronomia popular. Quinze milhões de desempregados. Outros milhões subempregados. Milhões de informais e invisíveis. Milhares de crianças assassinadas. Jovens pretos e pardos liquidados como se fora faxina e não carnificina.

Os intelectuais partiram para o movimento “solarpunk”, na tentativa de mostrar aos jovens que estes episódios de lamentável comportamento da política partidária não serão permanentes ou definitivos. Que há esperança para o Brasil.

Essa esperança passa por uma verdadeira conversão desse animal cruel que é o humano. Não é preciso invocar a ficção científica para concluir que o Brasil teria todas as condições para voltar a ser o líder ecológico, a Potência Verde que se pretendeu demolir nos últimos dois anos. A questão da sustentabilidade não é uma opção, mas uma necessidade. E urgente! A vantagem do “solarpunk” é excitar a imaginação daqueles seres privilegiados por uma inteligência superior, que não se conformam com o estágio sub-sub em que o Brasil de 2021 se encontra. Enquanto a Amazônia padece nos incêndios incentivados, o Pantanal deixa de ter água para – (que coisa incrível!) – incendiar-se, o Parlamento se preocupa com alterações da legislação eleitoral para garantir que a política partidária seja uma profissão, não um serviço prestado à comunidade. Pensar que os antigos vereadores se reuniam uma vez por semana e consideravam honroso tentar melhorar o convívio citadino, sem qualquer remuneração por isso…

Se a educação brasileira tivesse cuidado com carinho das habilidades socioemocionais, teríamos hoje uma elite pensante que não se conformaria com o atraso, a inconsequência, a irresponsabilidade e o descaso. Mas ela só se preocupou em fazer o educando decorar informações. Adestramento como o que se faz com papagaios.

Ainda assim, a vida floresce e desabrocha, a despeito do projeto contrário. E há muita juventude atenta, sensível, pronta a assumir o protagonismo de alertar aqueles que não conseguiram enxergar a realidade. Talvez seja essa elite intelectual que consiga alertar a sociedade brasileira e exigir compostura para os políticos que são pagos por um povo sofrido para defendê-lo, não para espoliá-lo e para frustrar as expectativas num futuro que teria todas as condições de ser radioso.

Vamos sonhar com um projeto consistente de conscientização da sociedade, para que se proponha o desafio de defender o que é seu? Restaurar a reputação avariada com a insanidade que não só autorizou, mas incentivou o extermínio de tantos biomas, a começar pela Amazônia?

Cumpriríamos o vaticínio do constituinte, que acenou com uma Democracia Participativa. Teremos fôlego e oxigênio para tanto?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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