A esperança da telemedicina no pós-quarentena

A esperança da telemedicina no pós-quarentena

Pedro Pássaro*

16 de agosto de 2020 | 09h55

Pedro Pássaro. Foto: Divulgação

Há anos, no Brasil, que o Conselho Federal de Medicina (CFM) vem tentando regulamentar, de maneira eficaz, a telemedicina. Na morosidade desse processo, todos fomos pegos de surpresa com a pandemia causada pelo novo coronavírus.

Em países da Europa e nos EUA, por exemplo, consultas realizadas por médicos e especialistas, por meio de videoconferência, já faziam parte da vida das pessoas bem antes da crise sanitária afetar a população em geral. Segundo estudo realizado pela empresa de consultoria McKinsey, nos EUA pré-covid, 11% da população já acessava a telemedicina. Durante a pandemia, pelo menos 49% dos americanos estão usando a ferramenta.

As healthtechs espalhadas pelo mundo oferecem um serviço que, por muitas vezes, foi questionado no Brasil, mas que se mostrou extremamente essencial para desafogar hospitais e prontos-socorros em meio à pandemia. E com o avanço da Covid-19 na população brasileira, a atitude de validar a telemedicina em caráter emergencial foi de suma importância por aqui.

O Ministério da Saúde, por meio da portaria GM/MS 467/2020, trouxe a esperança de que, mesmo após o período de emergência, o atendimento de pacientes por vídeo ganhe mais atenção e seja finalmente regulamentado em moldes assertivos, visando principalmente mais acessibilidade para aqueles que não possuem um plano de saúde.

Mas algumas questões começaram a preocupar e comprometer novamente o andamento dessa regulamentação, como o veto presidencial de um dispositivo que previa a regulamentação da telemedicina pelo CFM após a pandemia. Segundo o presidente Jair Bolsonaro, as atividades médicas por vias remotas devem ser reguladas por lei, o que pode dificultar ainda mais todo este processo. No entanto, nesta semana, a pedido do deputado Hiran Gonçalves (PP-RR), o veto foi derrubado e a regulamentação segue nas mãos do CFM.

Pedras no caminho que comprometem uma prestação de um serviço tão importante, pois a saúde da população deve ser colocada sempre em primeiro lugar. Aliás, este tem sido o nosso foco e de grande parte dos competentes profissionais de saúde do Brasil. Além disso, empreendedores que não têm medido esforços para ampliar o acesso da população brasileira a um serviço digno de saúde, levando médicos e consultas remotas a qualquer ponto do país onde exista um dispositivo eletrônico conectado à internet.

Mesmo em locais de grande vulnerabilidade social, médicos prestaram e prestam serviço via aplicativos, o que tem permitido a realização de inúmeras consultas por vídeo, resolvendo questões de saúde de baixa complexidade, que, em muitos casos e por muitos anos, dificultaram a vida de muitas pessoas.

Por meio dessas consultas, tem sido possível acompanhar, com sucesso, pacientes de maneira remota e garantir o acesso à saúde mesmo com hospitais e Centros de Terapia Intensiva (CTI) no limite máximo de ocupação. E isso, no contexto da pandemia, tem diminuído o risco de contágio e exposição ao coronavírus, principalmente de públicos mais propensos a desenvolver a forma mais grave da Covid-19.

De certa forma, estamos diante de um fato que certamente comprova o real papel da telemedicina quando o assunto é levar o cuidado médico para pessoas que dependem, na maioria das vezes, do Sistema Único de Saúde (SUS) ou, ainda, daquelas que estão totalmente à margem de qualquer tipo de assistência médica. Mas os benefícios da telemedicina não podem ficar restritos apenas a um momento específico da nossa história.

De acordo com o estudo de demografia médica realizado pelo CFM em 2018, o Brasil tem uma razão de 2,18 médicos por mil habitantes, no entanto, há uma imensa desigualdade na distribuição dos médicos pelo país. Existem capitais com uma razão de até 12 médicos por mil habitantes, e regiões do interior do Nordeste possuem valores inferiores a um médico por mil habitantes. O uso da tecnologia para prover acesso a saúde se mostra essencial nesse cenário.

Longas filas de espera, consultas particulares com altos preços, planos de saúde inacessíveis para a maioria da população e todos estes fatores que nós conhecemos bem de perto deste cenário. Tudo evidencia o quanto atendimentos online precisam fazer parte do cotidiano dos brasileiros o quanto antes.

Inúmeros são os casos de healthtechs que já disponibilizam profissionais da saúde de várias especialidades, como psicólogos, psiquiatras, nutricionistas, ginecologistas, pediatras, clínicos gerais, médicos da família, entre outros, com o objetivo de atender uma demanda significativa de pacientes com valores justos.

Mostrar que a telemedicina é primordial, seja dentro do período de uma pandemia ou não, é valorizar o ser humano em sua necessidade mais básica, que é o direito de viver de maneira saudável. E nós estamos dispostos a contribuir com isso.

*Pedro Pássaro é médico Oftalmologista especialista em Retina e Vítreo, com título de especialista pelo Colégio Brasileiro de Oftalmologia (CBO), e COO da OnDoctor.

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