A espécie evoluiu?

A espécie evoluiu?

José Renato Nalini*

11 de outubro de 2020 | 07h20

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Nem todos sabemos, ou, se sabemos podemos não nos lembrar das aulas da biologia. Ensinaram-nos que a humanidade é uma categoria bem complexa. De acordo com a classificação científica, os humanos estão no domínio Eucarya, reino Animalia, filo Chordata, subfilo Vertebrata, classe Mammalia, ordem Primates, família Hominidae, gênero homo, espécie sapiens. Essa questão terminológica ocupou mentes brilhantes por muitas décadas. A taxonomia é uma ciência que gerou muitas discussões. Já se falou somente em “famílias” e “ordens”, termos intercambiáveis. Mas tudo o que é simples pode ser complicado. Assim é que profligaram os “agrupadores” versus “segregadores”, numa luta que ainda não terminou.

Para o que nos interessa, o livro “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural, ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida”, de Charles Robert Darwin, foi publicado em novembro de 1859. Os 1250 exemplares esgotaram-se no primeiro dia. A partir daí, sucessivas reedições conquistaram o mundo. Fala-se em História antes de Darwin e depois de Darwin.

Darwin nasceu em 12 de fevereiro de 1869, em Shrewsbury, a oeste da região inglesa de Midlands. No mesmo dia, em Kentucky, nascia Abraham Lincoln. O pai de Darwin era médico rico. Perdeu a mãe aos 8 anos e seu avô materno era um célebre ceramista: Josiah Wedgwood. A marca da família ainda persiste na Grã-Bretanha.

Muito bem criado, até com certo fausto, Darwin não era bom aluno. O pai chegou a escrever: “Você só quer saber de caçadas, cães e extermínio de ratos, e será uma desgraça para si e toda a sua família”. O pai queria que ele também fosse médico. Entrou na Universidade de Edimburgo, mas desistiu ao assistir à cirurgia ortopédica em uma criança, numa era em que ainda não se usava anestesia como hoje.

Foi para o Direito mas achou aborrecido. Conseguiu, afinal, ser diplomado em Teologia, na Universidade de Cambridge. Estava pronto para ser pastor numa tranquila cidade do interior, quando foi convidado para a viagem científica no navio Beagle. Qual a razão do convite? O capitão Robert FitzRoy fruía de um status que não permitiria privasse com quem não fosse cavalheiro. Darwin detinha esse status.

FitzRoy tinha 23 anos e Darwin só 22. A pesquisa se resumiria a mapear águas costeiras. Na verdade, FitzRoy era obcecado por encontrar indícios que validassem o criacionismo. Acreditou que o teólogo Darwin o auxiliaria na missão.

A pesquisa durou de 1831 a 1836 e foi um suplício para ambos. FitzRoy provinha de família depressiva e ele mesmo sofria de depressão com tendências suicidas. Vários familiares praticaram suicídio, final pelo qual ele também optou, em 1865.

A viagem foi um sucesso. Darwin colecionou espécimes raros e não pensou em evolução. Foi só depois disso e inspirado por Thomas Malthus (Ensaio sobre o princípio da população) que ele constatou que algumas espécies prosperavam e outras fracassavam. Em nenhum momento Darwin falou em “sobrevivência do mais apto”. A expressão foi utilizada por Herbert Spencer, nos seus “Princípios de biologia”. O verbete “evolução” também não apareceu na primeira edição do livro de Darwin, mas só na sexta. Ele preferia falar em “descendência com modificação”.

Darwin manteve sua teoria em segredo, pois sabia que ela causaria furor. Ainda depois de publicada, ele se martirizava e se autodenominava “O capelão do diabo”. Sua versão atormentava a esposa, muito religiosa. A crítica também não lhe foi favorável. Dizia-se que “fora longe demais” e sem provas. Mas o darwinismo passou a ser doutrina aceita e respeitada.

Subjaz ao seu pensamento a ideia de perfectibilidade do ser humano. A vida é aprimorada a cada geração e as mudanças seriam sempre para melhor. Os mais capazes sobrevivem, os mais fracos perecem. Só que ela pode sugerir que algo não tenha funcionado no esquema. À evidência, mercê de avanços científicos, conquistou-se longevidade; crianças já não morrem como acontecia com frequência; a maior parte da população tem acesso a vacinas, medicamentos, tratamento médico e assistência.

Como explicar essa evolução contínua e restrita ao campo da ciência, se as guerras, ainda que localizadas, continuam? Se a fabricação e o uso de armas são crescentes? É evoluído matar setenta mil jovens por ano, assassinados por enfrentamento de gangues, queima de arquivos, cobrança de dívidas de droga? É capítulo da evolução deixar milhões sem saneamento básico, sem esgoto tratado, sem água potável, sem teto e sem condições de sobrevivência digna?

A proliferação da crueldade e o avanço da insensibilidade parecem mais vistosos do que o exercício da caridade, a disseminação da compaixão e da empatia.

A máquina física do homem suportou vicissitudes e sobreviveu a inúmeras crises. Não foi alvo de extinção, assim como os dinossauros e outros animais que só conhecemos por seus fósseis. Mas talvez haja uma evolução espiritual deficitária. Não corresponde às conquistas científicas. A ideia de que uma espiral hegeliana conduziria a humanidade ao ápice da perfeição, parece ainda muito distante da realidade.

Cada ser preocupado com a melhoria do convívio e com o desarmamento, não apenas material, mas moral, poderá fazer algo para que o mundo retome o curso evolutivo e que a humanidade tenha alguma justificativa para novamente se vangloriar por ser a mais racional dentre as espécies.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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