A escola, o luto e o amanhã

A escola, o luto e o amanhã

Lisandro Frederico*

15 de março de 2019 | 10h00

FOTO: NELSON ALMEIDA/AFP

Era cedo. Sete horas. Hora do sinal de entrada dos alunos em uma das mais tradicionais escolas suzanenses. Mas, hoje, lamentavelmente, não havia crianças e adolescentes falando, brincando. Havia apenas o silêncio. Um silêncio ensurdecedor. Dolorido.

Não havia comentários sobre a série do momento, o youtuber ou a banda preferida. Muito menos conversas sobre o futuro e os problemas juvenis. Nada pode ser ouvido.

Para quem estudou ou trabalhou na Escola Estadual Professor Raul Brasil, ouvir as conversas da multidão de adolescentes era a indicação de que naquele momento começará mais um dia de estudos, da busca da concretização dos sonhos e da renovação da esperança.

Eu e tantos outros suzanenses sabemos muito bem o quanto este sinal de entrada na Raul Brasil se faz ouvir. É estridente e soou aos ouvidos de várias gerações da minha família. Da formação do meu pai, do meu irmão, dos meus tios, e até chegar na minha.

Nesta quinta-feira, 14, o sinal barulhento disparado no momento da saída não foi acompanhando de nenhum ‘até amanhã’.

O amanhã, para 10 pessoas, não existirá mais.

A escola estava silenciosa. Fechada. Cinza. Triste. Não havia mesmo motivos para o contrário.

Os estudantes da Raul Brasi deixaram as salas de aula. Eles foram se despedir daqueles que um dia compartilharam sonhos e frustrações. Um cenário onde não deveria e não merecia estar e vivenciar.

Mas, aconteceu. De novo. E, agora, na nossa cara, na nossa casa. Na escola onde estudei por muitos anos. E de quem é a culpa? É nossa. Minha, sua, de todos.

Enquanto nos preocupamos com frivolidades, nossos jovens estão fragilizados e expostos à insegurança e à intolerância.

Para que haja uma mudança real, o impacto desta tragédia para Suzano e para o Brasil deveria ser real, honesto. Provavelmente não o será. Não para todos que deveriam.

Já tivemos tragédias parecidas no País e o que mudou? Nada.

A repercussão será momentânea, até o próximo escândalo ou o próxima massacre.

Enquanto discutimos cortinas de fumaça e superficialidades, a escola se distância cada vez mais do que deveria ser: um palco de aprendizado, onde a única preocupação dos jovens deveria ser com a prova final.

Alunos não deveriam correr para tentar se salvar ou salvar um amigo. O pai e a mãe que deixam o filho na escola, deveriam recebê-lo de volta. São e salvo.

Passados alguns dias, apesar de todo o trauma, será preciso que os alunos retornem à rotina.

Eles vão ouvir novamente o sinal de entrada e, junto dele, precisarão lidar como o medo e com toda a carga emocional que uma situação como esta traz.

É preciso amparar e oferecer suporte às sequelas que podem surgir a partir desta experiência traumática.

Que tenhamos o conforto necessário neste momento de luto.

Que o crime bárbaro seja esclarecido. E que todas as autoridades possam direcionar um olhar especial a nossa Educação e aos nossos jovens.

*Lisandro Frederico é vereador de Suzano pelo PSD e um dos fundadores da ONG PAS de proteção animal. Foi aluno da E.E. Professor Raul Brasil