A escola nunca mais será a mesma

A escola nunca mais será a mesma

José Renato Nalini*

17 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: CHRISTINA RUFATTO/ESTADÃO

Depois de catorze meses de pandemia, vê-se que algumas coisas vieram para ficar. Uma delas, é o ensino híbrido. Poderíamos estar muito mais adiantados, não fosse a mentalidade anacrônica de certas influências exercidas sobre os detentores do comando estatal. São Paulo já poderia ter o seu livro digital, cujo projeto estava pronto, elaborado pela IMESP, entre 2016 e 2017. Àquela altura, conseguira-se alterar a legislação que proibia o uso do celular em sala de aula, após exaustivo convencimento, interno e externo, de que os millenials não ficam sem suas bugigangas eletrônicas e que as aulas prelecionais já não conseguem encantar os adolescentes.

Ninguém percebeu que a evasão escolar tem sua ênfase no Ensino Médio? É que crianças bem novinhas ainda conseguem permanecer nas salas de aula, quando têm professores hábeis ou muito severos. Já o jovem não aguenta a repetição de informações que ele consegue instantaneamente na internet, mais atualizadas, coloridas, musicadas.

A cobrança para que as concessionárias de comunicações honrassem o seu compromisso de oferecer banda larga a toda escola funcionou durante um período. Depende da vontade política fazê-las cumprir as obrigações assumidas. Não se sabe se isso prosseguiu, pois a regra no Brasil é a reinvenção da roda a cada gestão que se inicia.

A pandemia veio a exigir uma digitalização instantânea. As escolas particulares foram ágeis. Investiram maciçamente e isso não será perdido depois que a peste for embora. Por sinal, há quem diga que ela nunca mais irá embora. Poderá parecer razoavelmente domada, mas as vacinas terão de ser periodicamente renovadas. O vírus gosta de assumir novas características. Somos frágeis e destruímos o nosso maior aliado: o meio ambiente.

As plataformas digitais constituem um tesouro ainda pouco explorado. Isso porque não se cuidou de capacitar professores para que o seu uso fosse disseminado e prodigalizado. Há inúmeros recursos disponíveis, funcionalidades a serem desenvolvidas e o aprendizado pode ser potencializado se houver empenho e coordenação.

Sempre defendi que os millenials fossem chamados para ajudar os mestres a descobrir os segredos informáticos, eletrônicos, cibernéticos. Eles parecem ter nascido com chips, pois apreendem de imediato aquilo que a geração analógica parece considerar infactível.

Descubro que isso já existe e que é chamado “Mentoria reversa”, ao ler o artigo de Francisco Iglesias, fundador da startup Juventude Reversa (FSP, 13.4.21, P.A3). Ele mostra que há salvação para aqueles não familiarizados com tecnologia e que se assustam “com novos termos como metodologia ágil, MVP, Squad e Scrum”. E explica o que isso significa: “metodologia ágil é a forma de acelerar as entregas durante o desenvolvimento de um projeto, fracionando o todo em partes incrementais que possam ser validadas em todas as etapas – e não só ao final, como antes era feito. MVP(Minimum Viable Product ou Produto Mínimo Viável), é o velho e bom protótipo de antes, porém com mais testes para que o produto possa ser oferecido mais maduro ao mercado. Squad são os clássicos trabalhos em equipes multidisciplinares, que sempre foram desejados e existiam, mas não formalmente como agora. E “framework Scrum”, grosso modo, é utilizar de Post its para algum “brainstorm”, técnica antiga para compartilhamento de ideias”.

Os que nasceram no final do século passado ou já neste século, são peritos nessas tecnologias. Eles podem servir para tutorar aqueles professores que ainda têm dificuldade. É uma forma prática de aliar a tecnologia educacional com as tecnologias da informação e da comunicação.

O professor do século 21 não pode ser o repetidor de conteúdo tradicional. Já há quem use a aula invertida e isso é muito comum na Universidade. Mas surte efeito quando bem implementada no Ensino Fundamental e no Ensino Médio também. Fornece-se ao educando material para que ele estude em casa ou em grupo. Nada impede – tudo recomenda – que esse material seja virtual. Quantos documentários, quantas aulas fabulosas, quantas comunicações estilo TED não podem enriquecer um curso? E o melhor será fazer com que o alunado seja tão desenvolto com as novas tecnologias, que criem aplicativos, procurem resolver problemas até hoje aparentemente insolúveis, criem startups e façam com que o Brasil saia do fosso das Ciências. A tecnologia veio para ficar e deve envolver direção, coordenação, planejamento, professores, funcionários, alunos e pais de alunos. Infraestrutura, novas plataformas, monitoramento e aferição de resultados. Há um universo a ser adequadamente explorado.

Todos terão a ganhar: as futuras gerações e a sociedade. O Brasil precisa de uma educação de qualidade. Ela é a chave para solucionar todos os seus problemas, sem exceção. Que bom que, depois desta peste que nos flagela, a escola no Brasil nunca mais será a mesma.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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