A enfermagem ao centro de um novo mundo

A enfermagem ao centro de um novo mundo

Chrystina Barros*

07 de maio de 2022 | 04h00

Chrystina Barros. FOTO: DIVULGAÇÃO

No nosso ritual de celebrarmos datas, neste maio de 2022 saudamos a Enfermagem com uma conquista muito especial: acaba de ser aprovado pela Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2564/2020 que estabelece o Piso Salarial da categoria.

Existirão posicionamentos extremos como sempre na vida: de que ainda é pouco para o que a categoria merece e de que isso não adianta se não há dinheiro para garantir a lei e o emprego. Nenhum dos extremos está isento de um pouco de verdade, mas como tais, estabelecem discussões que gastam energia enquanto o tempo passa e o problema persiste.

Tanto no âmbito público quanto no privado, os financiamentos são necessários para que os sistemas funcionem e entreguem saúde. Aliás, da dicotomia estabelecida pela pandemia, nada mais grotesco do que isolar vida e economia. Sem vida, não há economia. Sem economia, não há condição de dignidade. Qual o justo equilíbrio disto?

A frase é antiga, mas precisa ser sempre lembrada – saúde não tem preço, mas todos os recursos que precisamos para promovê-la e mantê-la tem custo. E não é pouco, mas não apenas para os equipamentos, as tecnologias duras tão importantes para a cura, desenvolvidas com muita pesquisa e esforço.

Até que as vacinas surgissem, o que nos salvou nesta pandemia foi o conhecimento e cuidado das tecnologias leves, relacionais, aquelas que não são duras e nasceram com a enfermagem científica. E aqui está a parte fundamental do trabalho em saúde – as pessoas que pilotam as máquinas e também exercem “apenas” o cuidado. Este deve ser o investimento real para a eficiência do sistema, para que se entregue valor em saúde de fato para a sociedade, conforme objetivo das dimensões consideradas.

No ecossistema da saúde, segundo o Conselho Federal de Enfermagem, são mais de 2,5 milhões de profissionais que representam cerca de 70% da força deste trabalho tão exaustivo pela própria natureza. Afinal, vivemos a eterna tensão entre o que é prescrito e o que é real, e quem navega por isso são as pessoas que precisam de suporte, treinamento, condições dignas e não precárias de trabalho.

Aliás, esta precariedade para qual a ONU e a Organização Internacional do trabalho nos chamam a atenção, não se apresenta apenas pela falta de recursos materiais, como os equipamentos de proteção individual que faltaram no combate a Covid. Ela se configura principalmente pela incerteza e imprevisibilidade do trabalho, o que é tóxico e nocivo para aquele que o exerce. Realces que a Covid trouxe para um mundo que estava em normose, vivendo o patológico como se fosse normal.

Vimos que determinantes sociais – condições de moradia, alimentação, escolaridade, renda e emprego – podem fazer a diferença na cadeia de transmissão de uma doença que conecta pobres e ricos cada vez mais distantes entre si. Mas ao mesmo tempo que não existe quem não seja vulnerável, desigualdades mataram pela falta de acesso.

Na saúde, colocamos luz sobre os trabalhos invisíveis de muitos, inclusive da enfermagem que foi aclamada pelo seu heroísmo diversas vezes. Mas de nada vale esta menção, se como para qualquer outra profissão não houver condições dignas do seu exercício, o que passa pelo reconhecimento e remuneração sim.

Que este projeto de lei ora aprovado impulsione discussões fundamentais para a sociedade sobre o que é valor em saúde, sobre o que é ter um trabalho saudável que não adoeça aquele que deve nos trazer cuidado. Está descrito e é tão cientifico quanto a potência de um vírus, que pessoas felizes e saudáveis “rendem” mais, seja qual for o sentido da renda. E que tal começarmos pela saúde, a construir uma sociedade que sobreviva, que seja perene e não feche apenas resultados de um plano anual?

A enfermagem está aí para isso. Pode cuidar, empreender em seus espaços com diversas competências e saberes e se coloca navegando as pessoas na linha de cuidado que cada um requer. Afinal, por mais automatizados que possamos ser, o cuidado jamais será dissociado do olhar, do toque ou do calor humano tão peculiar desta profissão.

*Chrystina Barros, enfermeira, especialista em Gestão de Saúde, doutoranda em Administração pelo COPPEAD/ UFRJ e coordenadora da Câmara Técnica de Gestão do COREN/ RJ

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