A eficácia da luta contra a pobreza está nos recursos empresariais

A eficácia da luta contra a pobreza está nos recursos empresariais

Alexandre Brandão Bastos Freire*

20 de julho de 2020 | 05h30

Alexandre Brandão Bastos Freire. Foto: Divulgação

As implicações da pandemia do novo coronavírus na economia brasileira já começaram a ser percebidas em março, quando o dólar bateu a casa dos R$ 5 pela primeira vez na história do Plano Real e o Ibovespa encerrou o mês com o pior desempenho mensal em mais de 20 anos, tendo, inclusive, acionado seis circuit breakers. Ao longo dos meses até junho, o cenário de instabilidade não foi muito diferente – salvo as oscilações esporádicas na Bolsa. Além disso, analistas já projetam a retração de 6,51% da atividade econômica deste ano.

Sendo assim, é possível conjecturar alguns movimentos que tendem a ocorrer no pós-pandemia do novo coronavírus, entre eles a enorme quantidade de fusões, aquisições e incorporações de empresas brasileiras.

Para 2020, já havia a expectativa de que o resultado do mercado mundial de fusões e aquisições superaria o do ano anterior. O relatório apresentado durante a Conferência Mundial da Baker Tilly International, em outubro de 2019, mostra que a maioria dos negociadores ou dealmakers entrevistados (71%) tinha como certa a expansão de seus investimentos além-fronteiras à medida que explorarem os mercados estrangeiros, apesar das turbulências do cenário global. Evidentemente, nenhuma dessas pessoas sequer imaginou que tal turbulência chegasse na forma de vírus e com tanta agressividade a ponto de derrubar a economia global.

No ranking dos países com intenção de negócios, segundo o estudo, o Brasil se configurava em décimo lugar, o que revela aumento de credibilidade no país e seu potencial para o sucesso de grandes negócios.

Ainda em 2019, o Brasil já apresentava dados esperançosos em relação a fusões e aquisições. Somente no primeiro trimestre, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais registrou a soma de R$ 108,6 bilhões pelas operações de fusão e aquisição, aquisições de controle, incorporações e vendas de participações minoritárias. Este valor representou crescimento de 20% frente ao registrado no mesmo período de 2018.

O aumento foi impulsionado pelas enormes movimentações no setor de petróleo e gás, seguidas do comércio atacadista e varejista, e dos setores de transporte e logística e de TI e telecomunicações. Somente a venda da TAG (Transportadora Associada de Gás) pela Petrobras, por exemplo, gerou R$ 34,2 bilhões. E o acordo entre a Petronas e a Petrobras no Campo Tartaruga Verde foi responsável pela soma de R$ 10,3 bilhões.

Se as projeções para fusões e aquisições no Brasil já eram otimistas em meados de 2019, tendem ser ainda mais favoráveis neste momento, no qual o país conta com a taxa básica de juros no nível mais baixo desde que surgiu e a expectativa para o dólar nos próximos meses é de maior valorização.

Se é que existe algo de positivo neste cenário escabroso de pandemia, que ostenta centenas de milhares de vidas perdidas e quase um milhão de infectados no Brasil, é a chance do país dispor de recursos que, certamente, auxiliarão na retomada econômica.

Naturalmente, as grandes empresas já contavam com caixa para momentos de dificuldade antes mesmo do início da pandemia. No entanto, por fatores diversos, muitas delas, principalmente as empresas brasileiras, não dispunham de caixa estruturado, de modo que, fatalmente, serão compradas por outras companhias mais aparelhadas, o que provocará a entrada de maiores recurso no Brasil.

Este movimento se configura em excelentes oportunidades de negócio para grandes, médias e pequenas empresas, afinal, quando duas ou mais companhias são unificadas, o montante do faturamento se torna superior ao que era. Além disso, há maior fortalecimento da marca, posto que a empresa concentrará maior público.

Nos EUA, por exemplo, onde estas operações são mais habituais que no Brasil, as fusões, aquisições e incorporações de empresas representam um vetor pujante para o bom fluxo da economia local e, consequentemente, dos demais países do globo. Os norte-americanos, aliás, são os responsáveis pelos maiores aportes no mercado brasileiro.

Sendo assim, é inegável que os efeitos dessas operações, principalmente quando envolvem a entrada de recursos estrangeiros, será a possibilidade de uma luta menos dramática contra a pobreza e a desigualdade, escancaradas pelo novo coronavírus.

*Alexandre Brandão Bastos Freire, sócio do escritório Bastos Freire Advogados

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