A educação interrompida

A educação interrompida

Mônica Weinstein*

29 de março de 2022 | 06h00

Mônica Weinstein. FOTO: DIVULGAÇÃO

Existe um paralelo entre a situação que vivenciamos recentemente na educação durante a pandemia do Covid-19, principalmente para crianças que vivem na pobreza, com a experiência cotidiana de educação dos refugiados. Em ambientes para refugiados, a ausência de escolas ou a falta de acesso a escolas significa que o ensino à distância e o uso da tecnologia não são uma solução temporária, mas muitas vezes podem ser a única solução.

Uma pesquisa publicada em 2020 por Joseph Bock, Ziaul Haque e Kevin McMahon investigou a oferta de programas de aprendizagem em ambientes de refugiados na Grécia, Jordânia, Síria, Quênia e Ruanda. Esses autores conduziram entrevistas com profissionais experientes no tema e revelaram algumas informações de interesse, dentre elas que menos de 2% da ajuda humanitária global total é destinada à educação em emergências; e que a falta de oportunidade de trabalho qualificado devido a políticas restritivas nos países anfitriões leva à falta de incentivo ou motivação para buscar uma educação, contribuindo para um “déficit educacional” crônico para os refugiados.

Em todo o mundo, apenas 1% dos refugiados frequentam a universidade (UNHCR, 2019), em comparação com 34% da população em geral. Crianças e jovens refugiados sem educação têm negados os benefícios socioculturais e econômicos que a educação proporciona. Privados de seu direito de buscar uma educação formal e consistente que lhes permitiria “cultivar as habilidades, conhecimentos e capacidades de pensamento crítico” necessários para fornecer “subsistência econômica sustentável…” eles enfrentam um futuro sombrio. Segundo dados da agência de refugiados das Nações Unidas (UNHCR, 2019), eles são mais propensos a se casar cedo, serem explorados, traficados e forçados a trabalhar ou assumir comportamentos de risco.

A exemplo das inúmeras dificuldades que o sistema de ensino público tem enfrentado para fechar a defasagem de aprendizagem no retorno às aulas presenciais após a traumática interrupção gerada pela pandemia do Covid-19, os campos com alunos refugiados em diferentes regiões do planeta também têm problemas únicos e complexos: falta de educadores, falta de acesso a recursos tecnológicos e à internet, barreiras linguísticas enfrentadas pelos alunos e falta de motivação para estudar pela dificuldade de enxergar benefícios no curto prazo.

A tecnologia educacional desempenhou um papel importante na disseminação de soluções criativas para os desafios causados pela interrupção da rotina escolar durante a pandemia do Covid-19; mas assim como acontece nos ambientes para refugiados, ela é apenas parte da solução, pois a tecnologia da educação por si só não ensina os alunos, os professores sim.  O vínculo com os professores é essencial para a melhoria do bem-estar psicossocial dos alunos que retornam presencialmente às salas de aula em 2022, assim como para os milhões de alunos refugiados em diferentes regiões do planeta.

*Mônica Weinstein, cofundadora e VP de Pesquisa, Desenvolvimento e Impacto no Alicerce Educação

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