A educação financeira de hoje nos tornará um país melhor amanhã

A educação financeira de hoje nos tornará um país melhor amanhã

Thiago Godoy*

23 de maio de 2020 | 07h00

Thiago Godoy. FOTO: DIVULGAÇÃO

Você já percebeu que passamos nossa vida escolar inteira sendo estimulados a aprender e buscar uma profissão que no futuro nos faça “ganhar” dinheiro, mas que em momento algum da nossa juventude aprendemos a efetivamente “usar” bem esse dinheiro?

Desde 2014, quando comecei a trabalhar com Educação Financeira, conheci pessoas de diversas faixas de renda, inclusive das mais altas, e que estão endividadas, ou super endividadas. A situação me pareceu tão grave que resolvi estudar o assunto: pesquisei no mestrado as origens do endividamento. Para além de muitas variáveis, identifiquei que o endividamento é causado pela falta de conhecimento. Pessoas com pouco dinheiro ou com bastante dinheiro que só se preocupavam em ganhar, mas eram completamente analfabetas em usar bem o dinheiro.

Neste mês de maio, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os resultados do PISA, o Programa de Avaliação Internacional dos Estudantes, que é uma grande prova para testar os conhecimentos de alunos de 15 anos de idade em todo o mundo. Esta prova avalia as habilidades dos jovens em leitura, matemática, ciências e algumas outras áreas, chamadas de “transversais”, como é o caso da educação financeira, ou o que podemos chamar de alfabetização financeira – na tradução mais correta ao nome dado pela OCDE (Financial Literacy).

Dando o devido crédito e importância, o PISA é a grande avaliação internacional da educação; abrangente e rigorosa, e os seus resultados indicam a qualidade da educação nos países, tanto que as melhores práticas são adotadas por formuladores de políticas educacionais em todo o mundo. Em outras palavras, esse exame é uma referência na educação.

A última edição do PISA foi aplicada em 79 países, sendo que a Educação Financeira foi testada em apenas 20. Mesmo assim, os resultados assustam e mostram a importância de desenvolvermos nossos jovens neste tema: de cada 10 estudantes, apenas 1 sabe o suficiente e 1 em cada 4 não sabe o mínimo. Isso quer dizer que temos um imenso contingente de jovens que não sabe fazer uma conta simples de supermercado.

E quando olhamos o Brasil, a situação fica ainda pior. Entre os 20 países avaliados somos o 4º pior. O que quero alertar aqui é que, para além de um péssimo nível educacional como todo, estamos formando jovens que vão começar a vida adulta sem o mínimo de capacidade financeira. Tanto pela baixa renda média que recebem em seus empregos de entrada, quanto pela incapacidade de lidar com o dinheiro.

É preciso ensinar os jovens a ganhar, mas também a saber lidar bem com o seu dinheiro. A capacidade financeira é baseada em conhecimentos, em habilidades e em acesso para que estes possam gerenciar os seus recursos financeiros de forma eficaz, e para isso, eles precisam entender e aplicar conhecimentos financeiros.

Em um momento de crise como esse, mais do que nunca, as pessoas entendem a importância do desenvolvimento de uma reserva de emergência, por exemplo. Pensar no longo prazo, planejar, gastar menos do que se ganha, aprender a investir, são todas habilidades que podem, e devem, ser ensinadas aos jovens.

É preciso desmistificar que a Educação Financeira é algo apenas para grandes investidores, para quem tem muito dinheiro. Pelo contrário, a educação financeira está se tornando, mais do que nunca, um conhecimento essencial para que a família comum possa aprender a equilibrar o seu orçamento, planejar a compra de um imóvel, financiar a educação de seus filhos e garantir uma renda digna quando os pais se aposentarem.

É claro que as pessoas sempre foram responsáveis por gerenciar suas finanças pessoais, seja nas decisões do quanto gastar nas férias, comprar ou não comprar um novo eletrodoméstico, ou poupar para a faculdade dos filhos e investir em seu futuro. Porém os acontecimentos recentes nos mostram como a conscientização das pessoas para suas finanças pode ser determinante para o seu bem-estar financeiro.

Antes de fechar, uma boa notícia do PISA para o Brasil: estamos à frente de outros países quando se fala em participação da família na educação financeira dos filhos. Os nossos jovens, junto aos jovens da Bulgária, da Lituânia e da Sérvia são mais interessados em falar deste tema com os seus pais do que os jovens de outros países. Portanto, a hora da educação financeira é agora e o primeiro passo é falar sobre dinheiro em casa. Pais e mães, conversem com seus filhos sobre educação financeira em casa. Falar de dinheiro deve deixar de ser tabu na família. A educação financeira em casa hoje formará adultos mais financeiramente educados amanhã e um país com adultos financeiramente educados é um país melhor.

*Thiago Godoy, coordenador de Educação Financeira XP Inc.

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