A economia na era das mudanças climáticas

A economia na era das mudanças climáticas

Carlos Bocuhy*

23 de julho de 2021 | 11h55

Carlos Bocuhy. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em plena pandemia, o mundo enfrenta a crise climática. O relatório em construção pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que será divulgado oficialmente em 2022, já foi noticiado e traz como conclusão a emergência climática, com o aumento da temperatura em 1,5 grau Celsius até a metade do século. Não há tempo a perder.

A pandemia demonstrou a qualidade de resposta dos governos e traz lições importantes em sua relação com as mudanças climáticas. A humanidade tem que aprender com os erros de governantes como Donald Trump e Jair Bolsonaro, que, ao agir de forma negacionista e tardia, levaram ao desnecessário sacrifício de vidas humanas.

Vale o mesmo para as mudanças climáticas. Provavelmente, o rol de interesses em manter o status quo, seja dos combustíveis fósseis, do desmatamento e outros, terá como argumento o mesmo discurso: “Temos que conviver com isso, o mundo tem que continuar”. Não faltarão interesses para alimentar discursos negacionistas e perigosos, que deixam de impulsionar a sociedade humana rumo às transformações e com a urgência que a crise climática exige.

É previsível o choque entre as forças que sobrevivem do crescimento econômico a qualquer custo e os setores mais progressistas em busca de prevenção, mitigação e em defesa das vidas humanas, principalmente das populações mais vulneráveis. O ser humano não é um apêndice da economia e não pode ser contabilizado apenas como força motriz para o Produto Interno Bruto (PIB). Indicadores econômicos voltados à vida e à qualidade de vida, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), estão mais próximos da realidade dos direitos fundamentais, inseridos na Constituição Federal. São um belíssimo exemplo de hierarquia civilizatória.

A vida em todas as suas formas, por uma questão ética, é o elemento prioritário a se proteger. No cenário da pandemia e das mudanças climáticas, o antagonismo entre direitos fundamentais e interesses privados é um falso conflito, uma inversão na ordem de prioridades. A adaptação deve buscar, em essência, o que é de mais valia.

Grande parte das atividades humanas estão configuradas sobre matrizes e sistemas impactantes ao clima. Assim, significativa parte da geração de riqueza e renda deverá passar por uma transição, um processo de adaptação em direção a um modus vivendi mais civilizado, ou seja, haverá uma extraordinária mudança para poupar vidas e permitir a sobrevivência da espécie humana.

Cada dia de atraso com relação às urgentes mudanças na matriz energética poderá representar o mesmo prejuízo que os atrasos no enfrentamento da Covid-19. A pandemia trouxe muitas lições negativas. Devemos aprender com isso e já podemos antever argumentos recorrentes. Será colocado o falso paradigma entre a proteção da vida e a geração de riqueza, e que as restrições impostas pelo aquecimento global não podem sufocar a economia e a empregabilidade. Certamente haverá também a minimização dos eventos climáticos.

Já estamos assistindo ao início de erros estruturais. Por exemplo, a substituição da matriz energética hidrelétrica em declínio, que já decorre das mudanças climáticas, por usinas termelétricas que gerarão gases efeito estufa diuturnamente, movidas a “gás natural”, uma atenuação semântica para o gás fóssil, de petróleo. Isso vale também para poluentes usinas incineradoras de lixo, chamadas poeticamente, por seus mercadores, de usinas de recuperação energética.

Como aceitar a tese de que é preciso gerar energia emitindo carbono para suprir as deficiências que as emissões de carbono geram? As condições climáticas extremas ficam mais próximas e inevitáveis a cada dia que atrasamos o corte nas emissões de carbono que hoje intoxicam a atmosfera planetária com cerca de 162 milhões de toneladas por dia. Na escala do clima global não há sinais de possíveis milagres tecnológicos. A vacina será o corte de emissões.

É preciso iniciar a transição com a urgência que o tema requer. Não há de se fazer concessões ou trocas entre vidas e geração de renda. As grandes transições da história têm riquíssimos exemplos de atrasos inaceitáveis, motivados pelos interesses envolvidos, como o entrevero na libertação dos escravos, sob os argumentos de perda de mão de obra e de prejuízos à economia do país. Este individualismo extremista tem se fortalecido na sociedade contemporânea e durante o enfrentamento da pandemia foi demonstrado em atitudes e omissões do governo federal.

O que se impõe, além do corte das emissões, é a ética para com a vida, principal meta que poderá alicerçar uma economia para a real sobrevivência.

Confusões alimentadas pelos interesses de plantão são usuais. Porém, o que está em jogo, além das vidas humanas, é a própria sobrevivência da economia. Afinal, em última instância, a economia só funcionará com sustentabilidade como um subsistema da ecologia.

*Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.