A economia criativa e a transformação das cidades

A economia criativa e a transformação das cidades

Luiz Salomão Ribas Gomez*

07 de fevereiro de 2021 | 06h30

Luiz Salomão Ribas Gomez. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os mais jovens talvez julguem difícil de acreditar, mas décadas atrás seria pouco provável encontrar Florianópolis no alto de uma lista das melhores cidades brasileiras para empreender. Estudo recém divulgado pela Endeavor e pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), porém, mostra a capital catarinense com pontuação 8,12 no Índice de Cidades Empreendedoras (ICE). Entre os maiores municípios brasileiros, apenas São Paulo se sai melhor, com 9,5. Hoje, diga-se, os nascidos a partir dos anos 80 ou 90 podem afirmar com convicção que seria difícil acreditar em uma avaliação desse tipo que não trouxesse Florianópolis em destaque.

De fato, em 2014 o município apareceu em primeiro lugar no ICE. Nos seis anos seguintes, consolidou a segunda colocação – sempre atrás da capital paulista. O desempenho é reflexo direto da transformação da cidade em um pólo da economia do futuro – ambientalmente sustentável, fundada em conceitos como inovação, tecnologia e criatividade e baseada no capital humano. Uma metamorfose que não ocorreu por acaso – e que, por sorte, competência ou ambos os fatores, aconteceu em paralelo a um movimento global de valorização de áreas como a tecnologia da informação e a economia criativa.

Os ingredientes por trás da Florianópolis criativa e empreendedora são bastante conhecidos. Em primeiro lugar, há que se destacar a grande presença de profissionais criativos na região. Engenheiros atraídos pela antiga Eletrosul e especialistas de diversas áreas formados ou docentes da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) formaram um capital humano riquíssimo – nos últimos anos fortalecido ainda mais por migrantes chegados de diferentes partes do País em busca de qualidade de vida e das belezas naturais que fortalecem o também importante segmento do turismo.

Sobre o assunto, vale lembrar o que diz o professor Richard Florida em sua obra “A ascensão da classe criativa”. Ele explica que essa classificação abrange desde músicos e artistas até engenheiros, programadores e profissionais de ciências da computação. São indivíduos que enxergam todos os aspectos de manifestações da criatividade – econômicas, tecnológicas ou culturais – como indissociáveis. “A principal diferença entre a classe criativa e outras classes está relacionada ao que ela é paga para fazer. Os membros da classe trabalhadora e da classe de serviços recebem sobretudo para executar de acordo com um plano. Já os da classe criativa ganham para criar e têm muito mais autonomia e flexibilidade para isso do que as outras duas classes”.

Em outro trecho, ele acrescenta: “Os sacrifícios a que os membros da classe criativa estão dispostos por dinheiro também são muito diferentes dos realizados pelos homens organizacionais de Whyte. Somos poucos os que trabalhamos para a mesma grande empresa por toda a vida, e somos bem menos propensos a relacionar nossa identidade ou autoestima àqueles para quem trabalhamos. Nós levamos em consideração tanto questões financeiras quanto a possibilidade de sermos nós mesmos, de determinarmos nosso horário, de realizarmos trabalhos instigantes e de vivermos em comunidades que refletem nossos valores e prioridades”.

Ou seja: a simples formação ou atração de pessoas não explica todo o quadro. Há também questões culturais – a tão propalada qualidade de vida – que beneficiam Florianópolis nesse momento de transformações da sociedade. Sem esquecer da essencial organização de uma rede de apoios ao empreendedorismo e a integração academia – empresas – Governo. Projeto planejado também a partir de esforços iniciados na Universidade Federal, esse ecossistema local existe há anos e se consolida a cada dia.

Há, claro, desafios a enfrentar – não apenas para Florianópolis, mas também em São Paulo ou qualquer outra cidade do Brasil. Formar mais e mais profissionais e empreendedores criativos será essencial para manter a competitividade no futuro. Principalmente porque já é coisa do passado a antiga barreira entre economia tradicional (indústria, agricultura, comércio) e a “nova” economia (tecnologia da informação, comunicação, marketing). O Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, feito pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), é revelador: “ Para se ter uma ideia, em 2017, 21,7% de todos os criativos formalmente empregados atuavam na Indústria de Transformação – corresponde a mais de 181 mil trabalhadores”.

Florianópolis colhe os frutos da acertada aposta na criatividade e na inovação. O Brasil pode seguir o mesmo caminho. Precisa, no entanto, valorizar e incentivar seus cérebros e estabelecer redes de apoio e suporte que favoreçam o desenvolvimento de novas empresas e de uma economia moderna, inovadora e pulsante.

*Luiz Salomão Ribas Gomez, criador do Cocreation Lab, pré-incubadora de ideias com unidades em Santa Catarina e Brasília

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