A economia clássica e a transição aos modelos de capitalismo ESG

A economia clássica e a transição aos modelos de capitalismo ESG

Juliana Oliveira Nascimento*

15 de junho de 2022 | 05h00

Juliana Oliveira Nascimento. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

Salienta-se que o ESG como pauta da vez consolida uma visão importante que transcende a realidade do contexto das organizações no aspecto econômico, fazendo emergir um Capitalismo que irá se efetivar na consolidação de um real “ESG Vivo”[1].

Para tanto, uma trajetória se percorreu para  a virada da materialização desse tema nas organizações. Afinal, circunstâncias históricas eram diferentes e trouxeram o mundo até o momento atual, logo conhecer estes registros é relevante para o entendimento do passado e do futuro.

Destaca-se que o conceito de sustentabilidade remete a antigos escritores da China, Grécia e Roma, sendo incorporado como a filosofia de viver em harmonia com a natureza. Nessa perspectiva, o termo sustentabilidade apresenta registros, em 1713, na Alemanha, nas realização de práticas florestais.

Neste prisma, sob o aspecto econômico em 1798, Thomas Robert Malthus desenvolve uma publicação em que admite a existência de um Estado Estacionário, de longo prazo, no qual os recursos naturais são esgotados e os salários se relacionam ao nível de subsistência, trazendo algumas reflexões aos pensamentos de David Ricardo e Adam Smith.

Neste caminho, anos depois,  John Stuart Mill enfatiza que a inovação e a natureza exercem um papel fundamental no acesso ao desenvolvimento econômico sustentável.  Diante disso, para Mill, o Estado Estacionário de Adam Smith se encontrava distante de ser de ser um lugar agradável para se viver, visto que era um sistema interconectado de aumento populacional, com esgotamento de recursos naturais e com impossibilidade de produção adicional. Sendo assim, tais fatos trariam como consequência a concepção de Estado Estacionário insustentável.

Interessante que muito embora os clássicos economistas tivessem já apontado a relação dos impactos do capital natural e social, além das questões econômicas, bem como da sustentabilidade, algumas visões foram em caminho contrário, com o passar dos anos. Neste ponto, tem-se a perspectiva do economista alemão radicado nos Estados Unidos Theodore Levitt,  em que uma empresa deveria estar voltada a geração unicamente de lucros, ou seja, com a finalidade meramente econômica.

Seguindo esse ponto de vista, outro defensor dessa corrente foi o economista americano Milton Friedman que compreendia que as companhias deveriam estar focadas na maximização dos lucros organizacionais. Com isso, qualquer investimento no social teria impacto nos ganhos dos acionistas, e, consequentemente, poderia lesá-los.

Um aspecto significativo é que Milton Friedman sustentava que a responsabilidade social se enquadraria como uma “autotributação” da empresa, pois o mero fato da empresa gerar lucro já seria caracterizado como cumprimento desta.

Todavia, o conceito mudou com a visão ESG, pois, os estudos realizados atualmente apresentam avanços nos modelos econômicos. Logo, os antigos modelos de capitalismo de shareholder, voltados aos proprietários/acionistas passam a ser modelos ultrapassados para o novo mercado.  A ótica se encontra agora para o capitalismo de stakeholder e regenerativo, em que as organizações possuem uma responsabilidade perante a sociedade.

Seguindo esse contexto, a Carta de Larry Fink de 2022, o CEO da Black Rock, destacou que o  “capitalismo tem o poder de moldar a sociedade e agir como um poderoso catalisador para a mudança”.

O novo panorama nos negócios agora se concentra na realocação do capital alinhado as estratégias sustentáveis e as chamadas finanças verdes (green finance), ainda, títulos sociais (social bonds), com o foco dos investidores. Sendo assim, cada vez mais a sociedade se encontra muito comprometida com valores primordiais de  “de negócios responsáveis, economia sustentável desenvolvimento e criação de valor a longo prazo”.

Ante o exposto,  se conclui que o aspecto econômico é fundamental ao ESG, visto ser ele que irá consolidar os investimentos para a realização das transformações e a inovação necessária para a consolidação do tema no mercado. Entretanto, não se pode deixar que somente o lucro seja a única perspectiva, visto que esse discurso não cabe mais na agenda de negócios e no panorama da ética dos novos modelos Capitalismo em nível global.

[1] O termo  ESG Vivo foi cunhado pela autora na publicação do artigo de sua autoria o “ ESG Vivo: A Nova Jornada da Globalização pela Transformação do Capitalismo Regenerativo e de Stakeholder no Mundo dos Negócios”  que se encontra no Livro ESG: Cisne Verde e o Capitalismo de Stakeholder: A Tríade Regenerativa do Futuro Global publicado pela Revista dos Tribunais.

*Juliana Oliveira Nascimento é gerente executiva sênior, cofundadora do Compliance Women Committee, advogada e professora. Integra o Compliance Council. Possui experiência relevante no âmbito corporativo de 18 anos. Master of Laws (LLM) pela Steinbeis University Berlin. Mestrado em Direito pela Unibrasil. Global Corporate Compliance pela Fordham University. International Management Business and   Compliance pela Frankfurt University Applied of Sciences. Possui formação nos Cursos de ESG, GRC – Risk University Executive e IPO pela KPMG Business School

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção

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