A duvidosa ‘engenharia’ do poder paralelo

A duvidosa ‘engenharia’ do poder paralelo

Impérios erguidos pelo poder de milicianos no Rio alavancaram a construção civil informal sem qualquer fiscalização, o que pode ter causado a queda de dois prédios na região da Muzema, na capital fluminense

Lucas Tatibano*

16 de abril de 2019 | 07h00

Lucas Tatibano. FOTO: HELOÍSA YAMASHIRO

Numa região privilegiada pela natureza, encrustada na mata atlântica protegida, e defronte a uma linda lagoa de água salobra, nasceu e cresceu um império, que tinha sim o seu imperador, assim como tinha um imponente exército que oferecia proteção e facilidades a todos os moradores, em troca de contribuições financeiras mensais.

Pode até parecer um bonito conto de fadas, no entanto essa é a triste história dos habitantes do império da Muzema, um bairro da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, na região da Barra da Tijuca, que foi conquistado e controlado durante anos por uma imponente milícia.

Inicialmente tínhamos apenas a venda de botijões de gás, um sistema independente de TV a cabo, entre outros produtos e serviços tão necessários no nosso dia a dia. Com o passar do tempo, o imperador miliciano da Muzema foi percebendo o quão distante estava a influência do poder público sobre a sua comunidade, principalmente nos quesitos segurança e fiscalização, e assim alçou voos empreendedores mais gananciosos, com o lançamento de uma construtora própria.

Após lançar e construir o primeiro edifício, que foi um sucesso de vendas, o negócio decolou, transformado o pequeno vilarejo da Muzema, de pequenas casas, num emaranhado conjunto de edifícios com altura média acima de 25 metros, ou nove andares.

Mesmo com a crise da construção civil acontecendo no Brasil, as obras no bairro da Muzema estavam a todo vapor e, quase sempre podíamos observar, a construção simultânea de três ou quatro novos edifícios de apartamentos.

Essas obras também podiam ser observadas a partir da outra margem da Lagoa da Tijuca, pela janela das mansões e dos sofisticados apartamentos existentes próximos da Av. das Américas onde, por ironia do destino, vivem muitos dos juízes, promotores, secretários, entre outras autoridades que de alguma forma poderiam combater a existência desse poder paralelo.

Sabendo dessa ineficiência das autoridades, novos edifícios eram lançados e construídos a cada época na Muzema, e talvez nunca saberemos qual foi o processo adotado para a elaboração dos projetos e para a construção destes.

Fossem esses edifícios legalizados, a primeira medida a ser tomada antes da construção é a realização de sondagens no solo no terreno da obra, possibilitando conhecer todas as camadas geológicas subterrâneas, inclusive a altura do lençol freático, fatores primordiais para embasar os cálculos e projetos das fundações.

As fundações são projetadas para receber todas as cargas da estrutura do edifício, e para tanto, precisam estar apoiadas em uma camada rígida de solo, ou preferencialmente, apoiada diretamente na camada de rocha.

Com relação aos edifícios que desabaram na manhã do último dia 12 de abril, uma escolha errada do método de fundação utilizado e da sua profundidade, ou mesmo a execução da fundação correta, mas com processos falhos e sem qualidade, podem ser o principal motivo do desabamento. Certamente o elevado volume de chuvas dos últimos dias encharcou o solo na região, ocasionando a sua perda de resistência, o que deve ter influenciado e colaborado para o colapso do sistema estrutural do edifício como um todo, haja vista a falha nas fundações.

Não podemos descartar também a possibilidade do colapso de algum muro de contenção próximo, sendo esse utilizado para segurar a terra de um terreno vizinho mais alto, o que é comum nessa região em aclive. Nesse caso, a pressão repentina junto a base do edifício colaborou para a queda.

É importante destacar que nessa fase preliminar não podemos ignorar nenhuma hipótese sobre os motivos técnicos que causaram o colapso do edifício. Até agora, o que devemos sim considerar é que foi possível conhecer, profundamente, a quão caótica é a atual situação política e gerencial da cidade do Rio de Janeiro, e dos seus muitos impérios autointitulados.

*Lucas Tatibano é especialista em planejamento e métodos construtivos de obras de infraestrutura e sócio da Tequipe