A divisão que multiplica

A divisão que multiplica

Melina Lobo*

04 de agosto de 2021 | 04h00

Melina Lobo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Vivemos tempos desafiadores no mundo empresarial. Como é possível passar por esses momentos de turbulência e continuar existindo no mercado? Essa pergunta traz várias possibilidades e algumas respostas – uma delas é que, ao observarmos grande parte das famílias empresárias, constatamos que elas carregam fortes valores e princípios, como a união entre seus membros.

Essa característica é importante. Ela ajuda as empresas a passarem por crises e ainda a se fortalecerem, crescerem, a se reinventarem e, principalmente, a desenvolverem a resiliência tão necessária nos dias de hoje. Um negócio de família, na maioria das vezes, é forjado em meio a obstáculos e dificuldades que acabam se tornando parte do legado, da tradição e da história daquele grupo. Ponto a favor da união.

No entanto, o que é fonte de força também pode se tornar motivo de caos se não for avaliado. O sonho do fundador, reinventado ao longo do tempo – muitas vezes com o auxílio de filhos que cresceram junto com o negócio – pode não estar mais alinhado com os desejos pessoais de cada membro da família. Uns são mais ousados, outros mais disciplinados, existem aqueles mais acomodados. Cada um do seu jeito.

Muitas vezes um membro da família é menos apto ao negócio da empresa familiar, tem outros sonhos e habilidades. Se, neste momento, o fundador ou fundadora espera que todos permaneçam juntos, a união forçada pode mascarar a situação e fazer com que os demais sintam estar carregando um fardo.  Esse fardo é sustentado pela autoridade daquele que, implícita ou explicitamente, pede ou exige que os filhos permaneçam juntos. E assim está pronta a receita para o insucesso neste mundo pós-moderno e horizontalizado, no qual vale mais inspirar que mandar.

Os filhos/herdeiros, hoje, já não toleram a imposição de uma união forçada. Querem agir com autonomia, colocando suas habilidades e desejos à prova em um mundo cada vez mais ágil e livre.

Ao se compreender que só dá liga o que deseja estar ligado, é importante entender também que a ruptura de um vínculo societário não significa o rompimento dos vínculos familiares – basta que  a questão seja habilmente tratada dentro da família. Assim é possível evitar conflitos desnecessários e manter a saúde da empresa, da qual tantas famílias dependem.

A habilidade de saber se separar pode ser desenvolvida, mas ela só existe para quem tem a coragem de falar sobre o que causa incômodo e sabe revelar sonhos e desejos de futuro, multiplicando competências na divisão da relação societária.

*Melina Lobo é advogada de famílias empresárias

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