A diversidade e o pré-conceito

A diversidade e o pré-conceito

João Roncati*

17 de setembro de 2019 | 06h30

João Roncati. FOTO: DIVULGAÇÃO

Neste nosso século 21, passamos a ter como pauta frequente a questão da diversidade. É verdade que muitos de nós, eu inclusive, acreditávamos que estávamos caminhando para a consolidação desta questão: diferente é apenas uma perspectiva e como tal, não pode ser alavanca de decisão de qualquer natureza. Mas, uma série de movimentos de caráter social e político reaqueceram a questão, num aparente contra fluxo do movimento de um grande número de organizações de caráter privado e público.

Neste contexto, algumas perguntas são muito importantes: porque dividimos nossa atenção (e suas consequências) entre “iguais” e “diferentes”? E, considerando um ambiente onde a diversidade é algo que está se consolidando rápido, ainda é possível encontrar pré-conceito?

As duas perguntas encontrarão boa parte de suas respostas no processo de desenvolvimento da cultura (ou aculturamento) de indivíduos e grupos. Mas também na formação de nossa capacidade cognitiva (de “pensamento e entendimento”) e de processamento de concepções e ideias: no cérebro reptiliano.

Começando do mais antigo e ligado às nossas origens, o cérebro reptiliano é fundamental e criará em nosso “processamento” o hábito de decidirmos rápido, buscando padrões em nossa “biblioteca” de experiências, exatamente onde nossa cultura se moldou e consolidou.

Numa busca frenética pela máxima eficiência de manutenção da vida, o cérebro reptiliano empurrará nosso límbico e córtex a tomar decisões e achar que já conhece o que vem pela frente. Neste processo, aquilo que aprendemos ao longo de todas (todas mesmo!) as nossas experiências de vida, soarão para este ser, como algo valioso: quanto mais conheço (ou acho que conheço, pois posso estar aproximando situações, coisas e pessoas semelhantes, sem que sejam iguais) melhor eu me sairei na luta diária pela vida. Valioso? Muito! Mas, facilmente empobrecedor.

Na pressão pela rapidez, onde ação e reação vem determinadas por um forte instinto de sobrevivência que está vívido em nós, tenderemos a atribuir sentidos e significados a pessoas ou situações, por “semelhança”. E aqui nasce o pré-conceito: o ato de interpretar, dar um significado para uma decisão, antes de ter vivenciado ou conhecido em profundidade. Valiosíssimo para uma situação de ameaça à sobrevivência, onde ao mínimo sinal de perigo, achamos abrigo que nos proteja de um predador. Perigosíssimo, quando por semelhança, nos afastarmos ou nos aproximarmos de algo que se revelará, muito diferente do que pensávamos, ou melhor, achávamos.

Mas num mundo inclusivo e que descobriu na diversidade, parte da fonte de inovação ou pelo menos dissemina práticas para cultivar o pensamento divergente, o problema do pré-conceito está minimizado, certo?

Ledo engano.

Tudo o que descrevi para nosso processamento, serve para um mundo inclusivo e, um não inclusivo. No inclusivo, nos obrigamos a não enxergar o diferente como algo estranho a nós, ou pelo menos darmos a chance de expressão e, quiçá de escuta para alguém ou algo que sequer dávamos atenção. Ganhamos com a somatória de pontos de vista diferentes. Exercitamos o abandono da ação imediata de classificar o “diferente” por um gosto ou não gosto tachado em sinais externos e superficiais.

A própria palavra “inclusivo” é perigosa, pois carrega a ideia de “incluir (trazer para dentro) algo ou alguém que está de fora, excluído”. Assim, podemos falar em escolas “tradicionais” que passam a ser “inclusivas”, ou modelos de família “tradicional” que convivem e permitem a “inclusão” de “outros modelos de famílias”. Depois de incluído o “diferente” (algo que carrega forte conotação de um valor estranho ou menor que o meu…), ainda somos “inclusivos” ou passamos a ser “diversos”? Caberia aqui uma extensa discussão sobre termos e palavras, que não nos importa agora. O fundamental é que um ambiente rico em diversidade de expressões, formas, gêneros, cores, crenças, etc, ainda pode ser pré-conceituoso.

Por quê? Novamente recuando ao processo de formação de nossa capacidade cognitiva e cultural, nós procuramos nos agrupar com pessoas com quem temos “identidade” e a partir dai, estabeleceremos vínculos. Esta identidade pode ser definida por infinitos atributos, seculares ou não (como uma religião ou um grupo de interesse pelo estudo de uma prática meditativa). O importante é que procuramos nossas tribos, pois facilmente nos sentimos mais confortáveis porque estamos…incluídos! Com muito menos esforço e, portanto, menos medo de não sermos aceitos (postos à margem, marginalizados) para o convívio. Soma-se a isto, a busca de atalhos, que já citei: procurarmos categorizar épocas, grupos, pessoas, de forma sintética. Isto não é diferente com o que consideramos “moderno”, digital, inclusivo. A figura do jovem é quase constante em tudo que está associado ao novo, à quebra de paradigmas.

Agora, somando meu desejo de estar com minha tribo de interesses, a expressão da identidade desta tribo por sinais (modo de vestir, de falar, de cortar o cabelo, etc…) e a natural formação de pré-conceito e teremos algo curioso: um grupo moderno, que adota roupas muito confortáveis e informais, expressa-se com menos formalismo, compreende a necessidade da diversidade, adota padrões que eram alvo fácil de pré-conceito (tatuagens, cabelos coloridos, etc), portanto a “cara” da diversidade.

Num mundo “digital”, facilmente associamos o novo e ágil a um rosto jovem e vestido de modo bastante informal. Atalho.

Já vi gente “digital” sugerir que alguém vestido de modo formal, estava “errado” por não estar à vontade. E ai, identificado com atributos ligados à hierarquia, poder, antiquado. Atalho e pré-conceito.

Não é curioso? Uma troca pelo velho ato de utilizar a aparência e não pelo “conteúdo”, para julgar.

Ser diverso, inclusivo e digital, significará buscar capacidade de realização, cooperativa com foco em resultado (pelo menos é o grande desejo das organizações. E não significará um tipo de roupa, um corte de cabelo, uma forma específica de expressão.

Estamos no caminho certo! Mas é muito importante estarmos vigilantes para não incorrermos em rotinas de nosso cérebro que são úteis para a sobrevivência, mas ruins para o trabalho realmente baseado em diversidade e cooperação.

*João Roncati é diretor da People + Strategy, consultoria de estratégia, planejamento e desenvolvimento humano

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