A ditadura da felicidade

A ditadura da felicidade

Daniela Faertes*

21 de março de 2022 | 14h40

Daniela Faertes. FOTO: DIVULGAÇÃO

A felicidade vem da ideia de ter o suficiente para se prover saúde física e mental e acesso às condições, não apenas mínimas, de provimentos essenciais, mas também de lazer, aprendizagem, descanso e segurança. É um conceito amplo.

Já a busca da felicidade, que hoje se faz uma analogia com uma ditadura, vem de outro lugar. Uma pesquisa recente, divulgada na revista Nature, intitulada como “A percepção social da pressão de ser feliz” está conectada à uma diminuição de bem-estar, principalmente nas nações tidas como mais felizes. Ou seja, quando se vive onde é quase impossível escapar da pressão por esta busca, muitos indivíduos se sentem pior. Eles compararam mais de 7400 sujeitos, em 40 países, perguntando como eles achavam que deveriam se sentir, baseando-se no quão felizes acham que as pessoas que os rodeiam estão, ou no quanto de felicidade eles enxergam ao redor – e se sentem inferiores, independente do local, pois notam uma pressão.

Vimos constantemente a felicidade explícita através da internet, celular, redes sociais, e, por mais que possam fazer campanhas mostrando que aquilo não é a vida real, o nosso cérebro acaba captando as informações por imagem, acionando nossas emoções. Desta forma, a busca incessante pela felicidade estaria gerando uma espécie de inquietude angustiante, criando um sentimento ainda pior.

É preciso fugir da ditadura da felicidade. Buscar o pote de ouro no fim do arco-íris pode ser frustrante, é preciso treinar a habilidade do bem-estar no dia a dia.

Muito além de um estado de espírito, a felicidade é uma sensação que traz conforto, é diferente para cada pessoa, no que diz respeito ao contentamento, e pode estar relacionada a diversos motivos, podendo ser algo duradouro ou temporário.

Um movimento criado no final dos anos 90, por Martin Seligman e outros pesquisadores, questionou sobre a ciência psicológica focar seus estudos apenas nas doenças, sintomas e disfuncionalidades, desconsiderando aspectos positivos em outras áreas da vida, que estariam em bom funcionamento.

Daí surge a psicologia positiva, que tem hoje seu lugar validado através de diversos estudos científicos e pesquisas, com eficácia comprovada no tratamento de diversos transtornos, como afirmado no artigo “Meta-Analysis of Positive Psychology Interventions on the Treatment of Depression”, de fevereiro de 2022, que comprova a eficácia desse modelo na diminuição dos sintomas depressivos. O estudo elaborou seis mecanismos que qualquer um pode executar no decorrer de sua rotina, com o objetivo de promover mais conforto emocional. São eles: gratidão, atos de bondade, correr atrás dos objetivos, processamento positivo de eventos passados, presentes e futuros, e identificação das suas forças e potências.

Esse modelo acabou ficando conhecido como Ciência da Felicidade e, além dos transtornos, ele vem nos ajudar a treinar nossas habilidades de bem-estar com a implementação de ações que visam o prazer do indivíduo, sem deixar de lado os aspectos negativos da vida. Ele tem uma tendência otimista, porém realista.

A ideia não é que você não possa ter prazeres imediatos, sejam eles uma compra não pensada, uma noite de farra ou a fatia de torta não programada. A questão está no excesso, que certamente gerará prejuízo. É necessário colocar um limiar de acesso cerebral ao prazer que se torna compulsivo, porque as coisas do cotidiano não têm o mesmo potencial.

De uma forma geral, todo o processo sugere que as pessoas enxerguem a vida buscando pela resolução de problemas e não ser mais uma vítima. É preciso aceitar que algumas características suas podem ser administradas, à base do esforço, mas não eliminadas. E, não apenas isso, ter qualidade nos vínculos, ficar longe de amizades tóxicas e cuidar de si mesmo, são ações que colaboram, e muito, quando se busca uma vida mais plena.

Apesar das dificuldades do dia a dia, a felicidade pode ser um sentimento frequente na rotina das pessoas. A partir da Psicologia Positiva, os indivíduos podem se equipar de ferramentas que visam lidar com as adversidades da vida. Apaixonar-se pela vida como ela se apresenta, mexendo em certas frestas para mudá-la, é um passo muito importante.

Todavia, não ser feliz o tempo inteiro não é um problema, aliás, é algo bastante comum de se acontecer, o problema é quando esse sentimento nunca chega. Nós, humanos, somos insatisfeitos por natureza. A questão é não nos fixarmos no que não temos. Solteiros querem um companheiro, comprometidos querem a liberdade da solteirice. A ideia é fazer as pazes com o que temos, sem que isso interfira no nosso potencial de ter mais ou conseguir ser algo diferente do que já é.

A seguir, algumas dicas para atingir a habilidade do bem-estar:

– Procure entender quais são os seus mitos sobre felicidade. Busque um modelo de bem-estar viável para você;
– Caso não possa mudar as circunstâncias, mude as suas atitudes e os seus hábitos. Se não for possível, trabalhe a aceitação;
– Pense de maneira mais realista e otimista;
– Você não é obrigado a tomar decisões perfeitas;
– Cuidado com o desejo insaciável de ter mais.

*Daniela Faertes, psicóloga. Especialista em terapia cognitiva e mudança de comportamentos prejudiciais. Especializou-se por renomados institutos nos Estados Unidos e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), IPUB – UFRJ e Instituto Albert Einstein. Atuou no Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e, como supervisora, coordenou o núcleo de tabagismo e criou o setor de amor patológico. É uma das pioneiras em trazer para o Brasil os novos modelos e técnicas de Psicoterapia Cognitiva. É membro da American CognitiveTherapyAssociation e professora convidada da PUC-Rio de graduação e pós-graduação. Faz atendimento nas áreas de mudança comportamental, bem-estar, transtornos psiquiátricos, dependência química e outras compulsões. Diretora do Espaço Ciclo no Rio Janeiro, palestrante e supervisora clínica e de Grupos de Estudo em Terapia Cognitivo

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