A digitalização do governo na era do home office

A digitalização do governo na era do home office

Luiz Alberto Rodrigues*

20 de maio de 2020 | 04h30

Luiz Alberto Rodrigues. FOTO: DIVULGAÇÃO

A quarentena e as medidas de isolamento social em vigor no país para o combate à pandemia do novo coronavírus trouxeram também uma importante reflexão sobre as atuais formas de trabalho. Uma delas é como medir e manter a produtividade e a eficiência do serviço público nos casos de home office?

Antes restrito à poucas funções e profissionais, hoje o trabalho remoto está presente em quase todas as empresas, se tornando fundamental para manter o mínimo da atividade econômica neste período. Na administração pública, no entanto, o método esbarra na falta de protocolos, processos e infraestrutura capazes de garantir a produtividade deste tipo de trabalho.

Adequar o serviço público à realidade do home office é apenas um capítulo de uma novela que se estende há décadas e passa por todas as esferas de governo. A busca por mecanismos de controle e monitoramento das atividades dos servidores é tão urgente quanto espinhosa e enfrenta resistência dentro do próprio funcionalismo, em que parte se vê ameaçada caso as administrações adotem ferramentas de medição de produtividade.

Segundo dados do Atlas do Estado Brasileiro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil tinha, em 2017, 11,5 milhões de funcionários públicos, sem contar os de empresas estatais. Deste total, mais da metade está concentrado nos municípios. A grande maioria deste contingente de servidores presta serviços à população sem nenhuma ferramenta de acompanhamento.

A Reforma Administrativa, paralisada no Congresso Nacional por conta da pandemia da covid-19, traz um interessante ponto de vista sobre produtividade para o serviço público, com a sugestão de pôr fim às promoções por tempo de serviço. Se passar como está na proposta, o item transformará um ato compulsório em objeto de análise de desempenho, o primeiro passo para uma gestão baseada em meritocracia e uma contribuição importante para o aumento da produtividade.

Apesar das barreiras impostas, o movimento rumo à modernização para a eficiência do serviço público é inevitável. Ancorado em novos conceitos tecnológicos disruptivos, como a Internet das Coisas e a Internet dos Serviços, a profissionalização da gestão chegará, mais cedo ou mais tarde, também ao serviço público.

Vale pontuar que modernização não é apenas transformar papel em dados eletrônicos, adotar um controle de acesso por biometria ou possuir a melhor infraestrutura digital, como geralmente o tema é tratado aqui no Brasil. É muito mais do que isso. Essas ações são consideradas obrigações e não agregam inteligência ao processo.

A modernização do serviço público precisa estar ancorada nos princípios do Serviço 4.0, um termo coletivo para tecnologias e conceitos de empresas de serviço e função de suporte com base em novos conceitos tecnológicos disruptivos, como blockchain, big data, Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial, analytics, machine learning, business intelligence e cloud computing. A internet das coisas (IoT) e o big data, por exemplo, já são utilizados para monitoramento e medição de processos em tempo real.

Esses princípios, que antes só estavam presentes no setor privado, como produtividade, controle, modernização, responsabilização, meritocracia e impessoalidade, agora já fazem parte do dia a dia de diversos municípios brasileiros. Além da ótica do gestor, a população ganha em eficiência, melhoria no atendimento e, consequentemente, na qualidade de vida, provando, na prática, que é possível trazer eficiência à gestão pública, mesmo em tempos de home office.

Se tivéssemos um sistema único de identificação pessoal digital, poderíamos hoje, seguramente, ter mais de 90% da gestão pública realizada de forma on-line. Só a modernização pode garantir que a máquina pública seja eficiente. A tecnologia, aliada à inteligência de dados, torna possível o trabalho remoto no serviço público com controle, produtividade e eficiência. Os sistemas inteligentes de gestão permitem ao administrador jogar em tabuleiros simultâneos. O mercado já oferece uma ampla gama de produtos focados em trazer eficiência e produtividade ao serviço público e na melhoria da qualidade de vida da população, contribuindo para a construção do ideal de justiça social que deve balizar a gestão pública.

*Luiz Alberto Rodrigues é administrador de empresas com mais de 35 anos de atuação no setor público e CEO da Eicon Inteligência em Gestão

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