A digitalização do ensino

A digitalização do ensino

Hubert Alquéres*

19 de abril de 2020 | 06h11

Hubert Alquéres. Foto: Divulgação

“Em que mundo viveremos depois que a tempestade passar?” É assim que o historiador israelense Yuval Noah Harari questiona os efeitos da covid-19 sobre a sociedade e as decisões que governos, empresas e pessoas estão tomando nestes dias.

Antes mesmo da pandemia provocada pelo coronavírus, o mundo já passava por intensas transformações em decorrência da Revolução 4.0. As mudanças vinham provocando impacto direto na forma da sociedade produzir e se organizar, em um claro indicativo de que estamos no limiar de uma nova era.

A covid-19 vai acelerar o redesenho de nossas vidas. Na economia, na cultura, na maneira das pessoas se relacionarem, na política e na própria educação.

O processo de digitalização, que já tinha invadido nosso cotidiano, vai dar um enorme salto enquanto estamos confinados. Isso amplia as oportunidades para avanços que beneficiam a humanidade.

É uma mudança que vai bem além da forma de produzir e de distribuir bens e serviços. Na verdade, estamos passando por uma transformação cultural profunda. Mudam aceleradamente as bases de produção, as cadeias de negócios, o sistema de saúde, as escolas. Para viabilizar essas mudanças, todos estão se apropriando de novas tecnologias digitais.

Esse movimento provocado pela pandemia em direção a um mundo mais digital talvez contribua para equacionar alguns problemas da sociedade moderna. Tendências que estavam em curso podem sofrer brusca interrupção ou mudança de rota. Outras, se afirmarão.

Ainda é cedo para saber como será o mundo pós-pandemia, mas certamente haverá alterações na geopolítica e na divisão social do trabalho, em escala planetária.

A pandemia pode, por exemplo, fazer retroceder o que a cientista política Lourdes Sola caracterizou como ativismo da discordância, resposta à globalização que fez ressurgir o xenofobismo, o racismo, a intolerância política, religiosa e racial, o separatismo, o ódio.

Esses sentimentos estão sendo absolutamente impotentes para derrotar o inimigo invisível – o coronavírus -, e sentimentos como solidariedade, união, igualdade e justiça social, que estavam hibernados, voltam a aflorar na humanidade. Grandes tragédias têm o dom de unir nações e povos para superá-las, como aconteceu na Segunda Guerra Mundial.

Vivemos momento semelhante.

Não gratuitamente, os líderes populistas estão perdidos com seus rompantes anticientíficos, antitecnológicos e de confronto com a verdade. O mundo das fake news, o terraplanismo, o debate raso das redes sociais, a antipolítica, estão em tendência declinante. Em contrapartida, a imprensa se consolida como o principal meio de informação, respeitado pela esmagadora maioria das pessoas. E a democracia, com o seu arcabouço institucional, mais uma vez dá provas de resiliência. Tende a vir mais forte quando a tempestade passar.

É nesse mundo instigante – onde a ciência é valorizada, a informação precisa passa a ser uma questão de vida ou morte e os hábitos digitais ganham mais força – que temos o desafio de redesenhar a Educação para que ela seja contemporânea. E devemos fazê-lo em um país retardatário, cuja revolução educacional iniciou-se apenas no final do século 20 e ainda está inconclusa.

Foi neste quadro que os países implementaram planos de emergência para desacelerar e limitar o potencial de contágio do vírus e promoveram a interrupção das aulas presenciais.

Mais de 1 bilhão e meio de estudantes em todo o planeta deixaram de ir às escolas para ficar em casa. O período de fechamento das instituições de ensino implica em perda maciça no desenvolvimento do capital humano, com consequências econômicas e sociais significativas a longo prazo.

É um forte teste de estresse para os sistemas educacionais. Mas também uma oportunidade para acelerar e romper com resistências e buscar alternativas de Educação com amparo do processo de digitalização do ensino. A China, primeiro epicentro da pandemia, já está bem avançada em fornecer acesso ao aprendizado on-line para boa parte de seus estudantes.

Hoje é plenamente possível dar uma resposta satisfatória de ensino não presencial. De um lado, há uma oferta de plataformas e aplicativos na prateleira e, de outro, a democratização da internet e o barateamento dos produtos.

Mesmo nas camadas mais carentes, a maioria dos jovens ou de suas famílias possui possibilidades de acesso cada vez maiores, especialmente por meio dos smartphones.

Ainda assim, as limitações e a iniquidade da educação digital têm sido diariamente debatidas por especialistas em educação. Os gestores tem enorme responsabilidade e devem optar por tecnologias mais acessíveis. As Secretarias de Educação vêm trabalhando nessa linha e muitas escolas privadas estão apoiando seus estudantes menos favorecidos.

A escola do século 21 é bastante diferente daquela do século passado, na qual o ambiente físico era rígido, as disciplinas não se comunicavam entre si, as aulas eram expositivas, o professor tinha o monopólio do conhecimento e da memória, os alunos tinham um papel de coadjuvante em cadeiras enfileiradas.

Hoje o conhecimento e parte da inteligência estão nas máquinas ou na nuvem. O professor não tem mais o papel de simples transmissor do saber. É mais um facilitador da aprendizagem dos alunos, que são os protagonistas desse processo, e um curador de fontes confiáveis de conhecimento. Sua grande missão é desenvolver nas crianças e nos jovens uma habilidade que eles irão necessitar por toda as suas vidas: aprender a aprender. O desafio dos tempos atuais é formar nossos jovens para profissões que ainda não existem, mas que existirão quando completar seu ciclo educacional.

Todas essas novas responsabilidades podem ser desenvolvidas tanto de forma presencial como por meio da educação a distância. As escolas bem-sucedidas serão aquelas que, híbridas, incorporarem em seu ambiente a cultura digital.

Cada vez mais a escola é convocada a formar, mesmo que remotamente, cidadãos e profissionais com espírito de liderança e de cooperação, que saibam atuar em equipe.

Deles exige-se capacidade de articular as partes com o todo, e de comunicação, além de rigoroso domínio de conteúdos específicos.

Impossível a educação formar esse profissional, esse cidadão, em uma redoma de vidro, inteiramente descolada de um mundo cada vez mais plural.

A escola, para estar em sintonia com o mundo além de seus muros, necessariamente tem que respeitar a diversidade. Como toda ciência, a educação requer um ambiente de liberdade, de tolerância, de respeito ao contraditório e de criatividade para poder se desenvolver.

As ondas não são eternas, um dia passam. Nós, educadores, estamos sendo chamados a resistir, a nos reinventar, sem abrir mão daquilo que temos de mais sagrado: o dever de estimular o aprendizado e propiciar uma educação híbrida, com recursos digitais, muitas vezes de forma remota, que tenha forte conteúdo e que seja humanista.

*Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e preside o Conselho Estadual de Educação de São Paulo. Foi professor na Escola Politécnica da USP, na Escola de Engenharia Mauá e no Colégio Bandeirantes

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