A deslocalização do cuidado da saúde no pós-pandemia

A deslocalização do cuidado da saúde no pós-pandemia

Fabrício Campolina*

27 de outubro de 2020 | 11h02

Fabrício Campolina. Foto: Divulgação

Os desafios impostos pela pandemia quebraram vários paradigmas nos diversos setores da sociedade. A indústria de entretenimento, por exemplo, já anunciou lançamentos de grandes produções diretamente em plataformas de streaming como alternativa ao cinema. No meio esportivo, grandes eventos, como o IronMan e a Maratona do Rio, estão acontecendo de forma virtual este ano, com competidores correndo e pedalando em suas casas, condomínios ou bairros, e com sua performance monitorada por smartwatch.

Estas inovações têm em comum a deslocalização do serviço que passa a ser entregue em qualquer lugar, à escolha do cliente. Possivelmente, o cenário pós-pandemia contará com opções de provas virtuais e presenciais, que serão vivenciadas de acordo com a preferência do participante. Essa deslocalização da entrega de serviços desponta como uma das tendências mais aceleradas pela pandemia, revolucionando até os mercados menos óbvios. E isso inclui a área da saúde.

Neste setor, a grande transformação vivenciada durante a pandemia foi o cuidado com a saúde para além das paredes dos hospitais, principalmente com uso da tecnologia. A tendência da deslocalização dos cuidados de saúde foi profundamente acelerada nos últimos meses e coloca o paciente como centro do caminho de cuidado. Ele, mais engajado com sua própria saúde, terá melhores resultados clínicos.

De olho nisso, gigantes de tecnologia têm apostado em dispositivos que monitoram indicadores de saúde como volume de movimentação, qualidade de sono, composição corporal, batimentos cardíacos, e até sinais relacionados à saúde mental para ajudar os usuários a fazerem escolhas mais saudáveis.

Estes dados, somados a outros gerados por dispositivos da Internet das Coisas Médicas, podem ser integrados a prontuários eletrônicos armazenados de forma segura na nuvem que, através de monitoramento contínuo por inteligência artificial, irão proporcionar conhecimento para os profissionais de saúde realizarem cuidados virtuais mais efetivos. E, também, possibilitam que este cuidado seja entregue no local em que gere mais valor para o sistema e para o paciente.

O processo de deslocalização do cuidado de saúde também é acelerado pela mudança de incentivos proporcionada pela adoção do Value Based Health Care (VBHC), modelos de pagamento baseados em valor, essencial para a recuperação do setor e para sua sustentabilidade. Finalmente, temos o alinhamento entre os incentivos financeiros de quem oferece serviços de cuidado de saúde com os interesses de quem os demanda: o paciente.

Agora estamos mais preparados para vencer os desafios e não podemos retroceder. Afinal de contas, ter o paciente no centro da tomada de qualquer decisão relacionada à sua saúde é reorganizar os paradigmas e direcioná-los da forma mais adequada. A megatendência da deslocalização do cuidado através da inovação tecnológica torna este avanço possível. A saúde agradece.

*Fabrício Campolina é diretor sênior de Healthcare Transformation da Johnson & Johnson Medical Devices na América Latina

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