A desigualdade de gênero é um péssimo negócio

A desigualdade de gênero é um péssimo negócio

Mônica Sapucaia Machado e Paula Zambelli Salgado Brasil*

23 de fevereiro de 2019 | 09h00

Paula Zambelli Salgado Brasil e Mônica Sapucaia Machado. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Banco Mundial, em maio de 2018 lançou o relatório The cost of gender inequality, que, em português, seria O custo da desigualdade de gênero, em que relata o prejuízo econômico causado aos países pela desigualdade de ganhos e rendimentos entre homens e mulheres. A primeira frase do relatório é: reduzir a desigualdade de gênero faz sentido economicamente além de ser a coisa certa a se fazer.

No mundo as mulheres recebem, em média, 2/3 dos rendimentos masculinos e correspondem, desde 1990 inalteradamente a 39% da força de trabalho mundial. Em 2018, segundo a Fortunes 500, apenas 4,8% dos CEO da lista eram mulheres.

As informações aqui são de conhecimento público, sabe-se que as mulheres ganham menos do que os homens nas mesmas funções, que as mulheres são menos promovidas, menos empoderadas pelos superiores e menos incentivadas a buscar voos mais altos. Contudo, não é falado que essa desigualdade, além de injusta e cruel, é economicamente desvantajosa para as empresas, para os países e para a sociedade como um todo.

Segundo o Banco Mundial a desigualdade de gênero em rendimentos produz, globalmente, uma perda de mais de 23 mil dólares/ano por pessoa. Pagar menos às mulheres gera menos dinheiro em circulação, faz com que se poupe menos, se consuma menos e, consequentemente, se pague menos impostos.

Paralelamente a isso, as mulheres são mais bem formadas do que os homens. Desde 1989 elas estão em maior número nas universidades e avançam nos programas de mestrado e doutorado de forma impressionante. Em 2013, a quantidade de mulheres com título de doutorado nos Estados Unidos era a metade do número de homens, em 2016, apenas 3 anos depois, elas correspondiam a 65% do número de homens com a mesma titulação, um aumento espantoso e vertiginoso.

Além disso, uma pesquisa do Gallup, realizada ao longo de 40 anos, apontou que as mulheres que por possuírem determinadas características acabam sendo reconhecidas como melhores líderes, trabalham mais, rendem mais como gerentes e supervisores e conseguem fazer com que seus subordinados também produzam mais e com maior eficiência.

Quando se relembra que o objetivo das empresas é a maximação dos lucros e o crescimento do mercado consumidor, deduz-se que ter profissionais bem formados e com mais capacidade de gerenciamento deveria ser condição sine qua non na contratação e promoção de colaboradores, porém as estatísticas mostram que o mérito não tem sido suficiente quando as candidatas são mulheres.

Essa realidade tem vários motivos: o sexismo estrutural, as responsabilidades familiares, as barreiras invisíveis. Todavia, a empresa que pretende sobreviver e expandir nessa nova década que se aproxima terá que deixar de lado velhos conceitos e ampliar o olhar para as novas tecnologias, os novos modelos de comercialização, novos gamas de produtos e serviços e novas formas de contratar pessoas.

Assim como no final do século passado o combate à corrupção empresarial (com os departamentos de compliance) se tornou ferramenta para a busca de relações mais éticas, com códigos de conduta definidos e implementados em âmbito interno e que tem apresentado resultados importantes na luta por um mundo e um mercado mais justo, agora é preciso que as instituições públicas e privadas se comprometam com o compliance de gênero, a fim de desenhar outros modelos de negócio que, de verdade, ofereçam oportunidades e ganhos iguais a homens e mulheres.

*Mônica Sapucaia Machado, autora das obras Women’s Rights International Studies on Gender Roles and Its Influence on Human Rights, Financiamento dos Direitos Sociais no Brasil entre outras; coordenadora da pós-graduação em Direito Administrativo e Novas Tendências da Escola de Direito do Brasil; Doutora e Mestre em Direito Político e Econômico, especialista em Administração Pública

*Paula Zambelli Salgado Brasil, Doutora em Direito Político e Econômico; Mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), coordenadora da pós-graduação em Direito Administrativo e Novas Tendências da Escola de Direito do Brasil; sócia da Lato Saberes Consultoria

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