A decomposição do Estado

A decomposição do Estado

José Renato Nalini*

08 de fevereiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Cento e noventa e quatro partes do território deste planeta adotaram a forma jurídico-política de Estado. Sobreviverá essa formatação às mutações derivadas da profunda reviravolta estrutural a que as sociedades se submeteram no século passado e que impactam este em que vivemos?

As comunicações fizeram com que aquela imensa parcela da população que permanecia à distância dos acontecimentos tenha hoje noção de tudo o que ocorre no mundo. Já se verificou a força das mídias sociais na deflagração de “primaveras”, em provocar ocupações, a promover manifestações e a mudar o curso da política eleitoral.

Já não existe privacidade invulnerável, pois os humanos parecem ter optado pela contínua exibição de suas imagens e de seus ambientes. Soa contraditório pretender preservar anonimato, proteger intimidade, quando se escancara a vida particular e se partilha – com uma comunidade difusa de destinatários – tudo aquilo que se veste, come, se visita ou admira.

Some-se a tal fenômeno o compreensível desgosto que essa ficção chamada “homem comum” alimenta em relação aos políticos. Embora a política seja a arte de coordenar ações que promovam o bem de todos, na verdade prevalece a busca dos próprios interesses. Um egoísmo personalista é a marca da atuação político-partidária brasileira. Conchavos, promessas descumpridas, acordos na penumbra, traições, maledicência, troca-troca de partidos e de adesões. Tudo impregnado pela desconfiança de que alguém está se aproveitando ilicitamente do Erário, cada vez mais débil, em virtude de tantas cumuladas crises.

Tudo isso faz com que a cidadania desacredite na política partidária como fórmula ideal de gestão dos interesses coletivos.

Existiria, no horizonte pátrio, alguma condição de revigorar a crença nos Partidos e de neles depositar confiança? As respostas não são animadoras. A Democracia é um ideal ficcional. Talvez nunca tenha existido na sua versão pura. O exemplo grego, no século de Péricles, é o emblema dessa impossibilidade. Reuniam-se na ágora somente os seres do sexo masculino, os legítimos gregos, que não precisassem trabalhar, pois quem é obrigado a cuidar do próprio sustento não tem condições de cuidar de interesses da comunidade.

As redes sociais surgiram como promessa de participação de cada ser humano com acesso à internet, para democratizar o governo. Já funciona assim em alguns países, só que muito diferentes do nosso Brasil. São populações menores e altamente politizadas. Um grau civilizatório do qual estamos nos afastando rapidamente, mercê de inúmeras causas. Das quais a pandemia não é a maior, mas que teve o mérito de escancarar as iniquidades desta Nação.

Por enquanto, as inflacionadas mídias sociais intensificam a disseminação de deboches, injúrias, ofensas, zombarias, escárnio e até crueldade. Para cada mensagem edificante, há dezenas de outras de péssimo gosto. Geradas numa usina amarga, cuja produção é cizânia, ressentimento e ódio.

Algum prenúncio de recuperação das boas maneiras, da polidez e do bom gosto? Ou será que os brasileiros perderam de vez aquela natural aptidão a um relacionamento espontâneo, a curiosidade em conhecer outras pessoas, a vontade de contar estórias e de ouvir relatos alheios?

Quem seria o mágico provido de carisma para injetar compostura na mídia digital? A mídia espontânea televisiva persiste na falta de originalidade costumeira, a promover reality shows com pessoas que pouco têm a acrescentar à carência de civilidade e de cultura de que padece a República.

Não existe um catalizador capaz de empolgar aqueles que não se satisfazem com a mediocridade, mas que anseiam por uma imersão estética, sonham com o resgate de valores que já foram básicos para a moldagem de uma cultura tão exuberante e singular como a nossa?

Seria muito bem vinda uma reação das pessoas lúcidas, conscientes, de bem e de bom gosto, para gerar a convicção de que a vida brasileira pode e deve ser melhor do que tem sido. Propagar o que enobrece, vedar o que empobrece o espírito. Despertar vocações capazes de comover os que não encontram lideranças, nem esperanças, nem conseguem mais enxergar dias melhores para uma nação que extermina sua biodiversidade, mas também sepulta os raros exemplos de probidade, honra e compostura na vida pública.

O Estado brasileiro lembra um corpo contaminado, que perdeu higidez ética e se impregnou de um vírus que putrefaz a política. Como interromper esse nefasto processo de decomposição?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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