A decisão de um estadista

A decisão de um estadista

Edson Miranda*

14 de março de 2021 | 06h30

Edson Miranda. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Em plena Segunda Guerra Mundial, na noite de 14 para 15 de novembro de 1940, a cidade de Coventry, distante 138 quilômetros de Londres, foi arrasada por um bombardeio da força aérea alemã, que despejou milhares de bombas incendiárias e toneladas de poderosos explosivos. O resultado foi devastador: 568 pessoas morreram e 863 ficaram gravemente feridas.

Esse ataque aéreo já era do conhecimento do alto comando britânico e Winston Churchill tinha pleno conhecimento do ataque aéreo com antecedência suficiente, para evacuar a população da cidade à beira de um inferno de chamas e explosões.

Ocorre que, com antecedência, os ingleses haviam decifrado o código das mensagens secretas alemãs e tomado ciência do iminente ataque. Churchill, como primeiro-ministro do Reino Unido, tinha a decisão final. Se evacuasse a população, isto com certeza alertaria os alemães e estes passariam a adotar um novo sistema de codificação de mensagens secretas. Se não evacuasse a população, a vantagem de decifrar as mensagens seria mantida e se constituiria num elemento chave para o sucesso dos Aliados, principalmente naquele momento em que a Alemanha estava em enorme vantagem no conflito.

Churchill decidiu por não evacuar a população de Coventry, mas o sacrifício de tantas vidas não foi em vão, pois os Aliados venceram a guerra e solaparam as potências totalitárias, que colocavam em risco a democracia. A guerra teve seu fim abreviado o que poupou milhões de mortos.

Os historiadores confirmam a importância estratégica dos britânicos de decifrar as mensagens secretas alemães em toda a Segunda Guerra Mundial.

Churchill tomou a decisão de um estadista. Uma medida difícil, não só pela lamentável morte de centenas de pessoas, mas também pelo custo político decorrente, pois o fato de sua tortuosa opção só se tornou conhecido muitos anos depois.

No Brasil, estamos vivendo um ambiente parecido com uma guerra. Mais de duas centenas de milhares de mortos, hospitais lotados, a população em casa e pleno toque de recolher à noite na maioria dos Estados.

Os números são imprecisos, mas alguns historiadores afirmam que 50.000 brasileiros morreram na Guerra do Paraguai, maior conflito armado da América do Sul, do qual o Brasil participou.

Então, na atual guerra contra a COVID, nosso inimigo invisível, já temos cinco vezes mais vítimas do que na verdadeira e sangrenta guerra do século XIX.

Infelizmente, nós não temos estadistas, na acepção da palavra, ou seja, aquele que é versado na arte de governar e exerce, com sabedoria, a liderança política e sem limitações partidárias, como ensina Houaiss em seu excelente dicionário.

No Brasil impera a ação desordenada, sem unidade de comando e permeada de condutas totalmente incondizentes com a gravidade da pandemia.

Na esfera federal, a condução do combate à COVID continua errática. O governo federal antes considerava a pandemia uma “gripezinha’ e que já estava em seu fim. Depois não apoiou as medidas preventivas necessárias para evitar a disseminação do vírus. Os exemplos do mandatário máximo sempre foram contrários ao que a população deveria fazer, para se proteger da chaga, que grassa por todo o país. Para piorar, também não deu a devida prioridade à imunização por vacinas. Ao contrário, enxovalhou a vacina chinesa, que por ironia do destino, é a que foi produzida primeiro em terras brasileiras e já está salvando milhares de vidas.

Por fim, para achincalhar com tudo, partidários do mandatário máximo colocaram uma arma de fogo na imagem do Zé Gotinha, espalhando-se a grotesca imagem nas redes sociais.

É bom lembrar a alguns políticos brasileiros que a arma de fogo tem por função matar e a vacina tem a gloriosa missão de salvar vidas. São imagens incompatíveis.

Mas a culpa não pode ser apenas computada ao governo federal. As esferas estaduais e municipais também têm sua parcela de culpa.

Os especialistas sanitários já vinham alertando às autoridades brasileiras de que uma segunda e mais forte onda da pandemia atingiria o Brasil e era demasiado importante tomar as medidas que evitassem as aglomerações e a ampliação do contágio. Mas, nada foi feito até as eleições municipais.

Mesmo após as últimas eleições, não foram tomadas medidas efetivas e sérias para evitar as aglomerações.

Agora, as medidas estão sendo tomadas tardiamente e ao elevado custo de vidas. Os governadores e os prefeitos estavam no momento de serem verdadeiros estadistas e, com o medo do custo eleitoral, não foram tão previdentes como deveriam ser.

Contudo, tem que se reconhecer que a maioria dos governadores e prefeitos está tomando as medidas necessárias e, por via de consequência, colocam o futuro de suas carreiras políticas em jogo.

É nesses momentos que a história registrará aqueles que foram estadistas ou não.

É muito provável que Churchill, Kennedy, De Gaulle, Dom Pedro II e outros grandes estadistas mundiais já falecidos, diante das barbaridades cometidas no Brasil em plena pandemia, devem estar se revolvendo em seus esquifes e até mordendo as alças de seus caixões.

Que nessa situação grave e sem precedentes que vivemos, o bom senso e o compromisso com a Nação brasileira façam com que se despontem alguns verdadeiros estadistas no meio político tupiniquim.

*Edson Miranda, advogado, professor universitário e escritor

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