A dança diante da tragédia

Carlos A. Klomfahs*

20 de maio de 2020 | 03h30

Esses dias reli parcialmente o livro: O Relatório da CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos) de 2006 sob o título: Como será o mundo em 2020, versão em português com introdução do jornalista Heródoto Barbeiro e na edição francesa, de Alexandre Adler, historiador, jornalista e especialista em geopolítica.

Pois bem, nesse livro, difundindo um horizonte de 14 anos à frente, muito foi pensado e avaliado; hipóteses, teorias; umas reais, outras pressupostas; menos como o mundo global poderia ser afetado pela globalização e trânsito de pessoas/bens e especialmente, pela degradação do meio ambiente, isto é, poluição, devastação, exploração e abuso no uso dos recursos naturais não renováveis.

Surge então a dúvida: qual a razão oculta e explícita para que diversas autoridades, diante da Pandemia nacional e internacional que vivenciamos, dançarem diante da tragédia alheia?

O leitor é inteligente e qualificado, as autoridades referidas são bem conhecidas e não merecem nem terem seus nomes serem citados, pois, assim como ‘vampiros se alimentam de sangue’, aqueles se alimentam da polêmica e de seus nomes retweetados (sic) nas redes sociais.

Dançar – defino meus termos – significa: “dar de ombros”, “minimizar”, “desdenhar”; com vontade livre e consciente de não se colocar na posição de outra pessoa que sofre, não respeitar o silêncio, a ciência, recusar a consolar publicamente, à vista de mais de duas centenas de milhares, milhões de infectados; famílias enlutadas; desemprego; insegurança com o amanhã; fome!

Não sou psicólogo (ainda) eis que trancada a matrícula, todavia, como professor de Direito Constitucional acostumado a pensar os grandes temas e agruras da Filosofia do Direito, atrevo-me a alguns comentários e provocações.

O primeiro comentário é que essas autoridades que dançam diante da tragédia são blindadas pela alta concentração de renda do país, incluindo a crise do mundo ocidental, caracterizado por Niall Ferguson no livro: “Civilização: Ocidente x Oriente”, com os institutos da competição, da ciência, dos direitos de propriedade, da medicina, da sociedade de consumo e da ética no trabalho; são instituições que não ecoaram nos valores cristãos supostamente defendidos pelo Ocidente, veja-se as dificuldades socioeconômicas, o custo de vida infligido aos mais vulneráveis da sociedade se comparadas e eles.

O segundo comentário, essas autoridades são privilegiadas pela desigualdade social que expõe diferenças gritantes entre ricos e pobres, revelando quem pode ficar em isolamento social; uns de um lado estando abastecidos e com salários garantidos; e outros de outro lado quem lutam para conseguir seiscentos reais para comprar comida, cuja carga tributária regressiva e indireta (ICMS, IPI, PIS e COFINS) lhes consomem mais de metade de seus orçamentos, exatamente o que concluiu a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, divulgada pelo IBGE em 04 de outubro de 2019: “Famílias com até 2 salários gastam 61% do orçamento com alimentos e habitação”.

Entendidos então que a razão explícita pela qual as autoridades podem ‘dançar diante da tragédia’, é porque são privilegiadas economicamente e blindadas socialmente, o que lhes permite ocultamente imunidade vitalícia diante do restante da sociedade, assim, nada lhes atingem, tampouco ação de impedimento.

Por fim, a provocação que se faz é: qual exatamente é o limite da democracia e do Estado de Direito, diante de reiteradas autoridades investidas no Poder por meio do voto, cujos pedidos de impedimento são guardadas na gaveta da Câmara dos Deputados, somente porque não havia – e o sistema político-partidário atual não permite – outras opções?

Dito de outro modo, até quando seremos testemunhas mudas e impotentes desses abusos, sem que envidemos novamente, grandes manifestações pela volta urgente da Democracia real e pelo verdadeiro Estado de Direito.

Sem isso, continua a Dança diante da tragédia.

*Carlos A. Klomfahs é professor, advogado e poeta

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