A cultura do cancelamento e a quebra do espelho

A cultura do cancelamento e a quebra do espelho

Marcelo Copelli*

28 de fevereiro de 2021 | 10h00

FOTO: GERD ALTMANN/PIXABAY

Atualmente, as redes sociais transformaram-se em palcos para a prática da cultura do cancelamento, onde pessoas públicas, famosos, influenciadores digitais, atividades e produtos podem a qualquer momento ser excluídos dentro dos cenários multifacetados nos quais interagem.

A cultura do cancelamento teve início com a mobilização de vítimas de assédio e abuso sexual do movimento #MeToo, e que ganhou ampla visibilidade após levar grandes nomes da indústria do entretenimento nos Estados Unidos aos tribunais em 2017. O movimento que tinha como proposta expor uma questão silenciada por anos, acabou por se configurar, daí por diante diante, por uma incessante busca pelo boicote de pessoas e empresas no mundo virtual por eventuais erros, presentes ou passados, enredando, através de uma desenfreada peregrinação, em uma possível série de injustiças.

Um dos exemplos mais recentes é representado por artistas que participam da mais recente edição do do reality Big Brother Brasil, no qual, a cada semana, espectadores não somente eliminam os seus “desafetos” do programa, mas se empenham em viralizar movimentos através das redes sociais para literalmente também aniquilar as vidas sociais e as carreiras dos escolhidos, valendo-se do poder do anonimato em seus julgamentos. A mesma mão que defende um dos participantes e levanta bandeiras e valores é a que impiedosamente elimina não o personagem do jogo, mas o indivíduo, expondo e atacando até mesmo as suas famílias e destruindo trabalhos profissionais construídos, muitas vezes, ao longo de anos.

A justificativa usada em nome das injustiças é o álibi proposto para sumariamente cancelar os “impuros”, de diferentes ideologias, com requintes de quase crueldade em um ciclo de disputa hierárquica e de revide. Nesse momento, o espectador incorpora o papel de protagonista, com a nítida sensação de decidir quem sobreviverá não somente dentro da atração, mas também fora dela. Mas, não seria esta sua aversão em parte explicada pela íntima necessidade de afastamento que possui sobre a sua própria imagem refletida no personagem de comportamento questionável ? Seria o cancelamento uma mera tentativa de banir as próprias sombras expostas de forma inconvenientemente semelhante pelo outro subjugado?

As pedras virtuais não fazem distinção de religião, sexo ou credo. E aqueles que as atiram, miram não somente nos alvos que dão mau exemplo, mas em seus próprios espelhos.

O ilusório poder de alguma forma manipular a vida alheia permite com que esqueçamos da realidade presente, dos atos impensados, da nossa íntima humanidade, capaz de errar diuturnamente, mas que precisa ser ocultada. E, quando em uma atração televisiva, voltada ao entretenimento, rejeitamos de forma coletiva alguém com quase a integralidade dos votos, algo pode estar errado. Como dizia Nelson Rodrigues, “toda a unanimidade é burra”. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.

Resta saber até quando miraremos, julgaremos e quebraremos espelhos para tão somente evitar enxergar nossas próprias sombras e rejeitar os nossos envergonhados reflexos.

*Marcelo Copelli, jornalista e pesquisador na área de Comunicação

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