A criança é o pai do adulto: consumo e amor

A criança é o pai do adulto: consumo e amor

Diógenes Carvalho*

14 de março de 2019 | 07h00

Diógenes Carvalho. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não somos nada nem ninguém sem consumir. Vivemos numa sociedade de consumo, disso todos nós sabemos. Acontece que a nossa ânsia por obtenção palpável se estendeu até os desejos mais íntimos. Não adquirimos por ímpeto apenas roupas, sapatos, carros e objetos. Nós consumimos sentimento, pessoas e tempo. Tudo. Parece que sem consumo não existe vida. Nem bem estar. Nem felicidade. Nada.

O consumo é um conceito vago e poroso, pois pode ser entendido como manipulação ou uso; em outro momento, como compra, ou ainda esgotamento, exaustão e realização. Barbosa; Campbell (2006) afirma que consumo “deriva do latim consumere, que significa usar tudo, esgotar e destruir; e do inglês to consume, se aproxima do significado em português, usar em grande quantidade, sentir demasiadamente, destruir.

Contudo, alguns teóricos afirmam que significa somar e adicionar. Observa, ainda, que no Brasil o termo ficou mais próximo da primeira dimensão, que soa negativamente, enquanto a consumação tem um sentido mais positivo, de realização. O consumo é algo banal, até mesmo trivial. É uma atividade que se faz todos os dias, por vezes de maneira festiva, ao organizar um encontro com amigos, ou para se comemorar um evento importante ou para nos recompensar por uma realização particularmente importante (BAUMAN, 2008).

O consumo é complexo, elusivo e ambíguo. Trata-se de um conceito furtivo e vago, porque, embora seja um requisito para a reprodução social de qualquer sociedade humana, só se toma conhecimento de sua existência quando é percebido dentro dos padrões ocidentais, tidos como supérfluo, ostentatório ou conspícuo, conforme Thorstein Veblen (1899/1987), pois retira o consumidor do mundo da necessidade e usa o argumento da luta por status, colocando esse personagem nas relações sociais. Se não fossem tais interpretações, a presença do consumo no cotidiano passaria de forma despercebida.

Assim, as pessoas estão cada vez mais insatisfeitas com elas mesmas e com o mundo. Querem preencher a qualquer custo os seus buracos. Consomem tudo e todos ao mesmo tempo, na ânsia desesperada de abarrotar os espaços vazios que levam por dentro. Começam se enchendo de coisas, mas logo o tangível passa a não bastar. Então, encontram nos outros a possibilidade da sensação de plenitude, de prazer e satisfação. É uma perseguição atrás da saciedade.

Aí vem a primordialidade de ter e sentir, a carestia da posse, que comanda os sentidos e determina as ações. A ideia da posse acalma. O problema é que depois que o refém é liberado, um rombo maior se abre por dentro, e você vai precisar preenchê-lo outra vez. E mais outra. E, assim, sucessivamente.

É preciso se sentir querido e reverenciado. Se consome desde uma atenção ao tempo dos outros. Aliás, o tempo é uma coisa curiosa. Tem gente que só se sente vivo, de fato, se estiver abusando de todo e qualquer sopro de segundo. Perder tempo ou sentir que não está fazendo nada com ele é infelicidade certa, causa mortis. Abusam do tempo, o tempo todo, a fim de afirmar-se vivo.

E, assim, o consumo se expande junto das vontades cada vez mais ansiosas e caprichosas. O eu grita mais e mais alto, faz as suas birras, é exigente e infantil. Você cede. Até porque a sensação é de que uma vida sem consumo é chata, vazia e sem nenhum propósito. O pensamento é que só é possível ser feliz quando se adquire, e adquire muito, seja lá o que for. Os consumidores gastam dinheiro, gastam tempo, investem os seus planos e sonhos, se desgastam em expectativas e frustrações.

A verdade é que enquanto estarmos nessa dinâmica infantil da sociedade contemporânea e virtual, continuaremos procurando por objetos e pessoas que nos baste. Miraremos alvos incertos, consumiremos coisas freneticamente. Quando deixaremos de ser ávidos consumidores!? Ou avançaremos como adultos que somos?!

“A criança é o pai do adulto.” Uma das frases mais admiráveis do Freud, quando ainda na fase adulta, tratamos essa criança com objetos, coisificando pessoas. De fato, ainda não conseguimos avançar, pois só crescemos em tamanho. Essa “criança” ainda não conseguiu ter o que realmente faz sentido como, por exemplo, a aceitação da falta, bem como do vazio constitutivo. Precisamos evoluir para que a vida faça sentido! O amor tem muito a ver com limite, e quando não conseguimos por limites aos nossos desejos, essa criança tirana que existe dentro de nós, vai nos comandar e (des)controlar, ainda que internamente.

*Diógenes Carvalho, pós-doutorado em Direito, doutorado em Psicologia, mestrado em Direito, advogado e professor