A covid-19 como impulsionadora das práticas de ESG

A covid-19 como impulsionadora das práticas de ESG

Eliete Martins e Ricardo Zibas*

05 de agosto de 2020 | 05h30

Eliete Martins e Ricardo Zibas. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Em decorrência dos diversos acontecimentos ocorridos nos últimos anos, investidores institucionais e demais organizações do mundo estão cada vez mais cientes da importância de incorporar em suas operações práticas ambientais, sociais e de governança, chamadas de ESG (sigla em inglês para Environmental, Social and Governance). No atual cenário de pandemia que vivemos, a pergunta que fazemos agora é se a covid-19 será finalmente a catalisadora que impulsionará a implementação destas práticas?

Mais importante que olhar apenas para os impactos da covid-19 nos negócios, é entender as consequências desta pandemia em toda a sociedade. A pandemia nos mostrou como as organizações estão diretamente conectadas com a sociedade e como os riscos ESG podem se propagar muito rapidamente em todo o sistema econômico mundial.  A crise afeta quase todos os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), estipulados pela ONU, pois além de atingir diretamente a saúde da população e a disponibilidade dos serviços, em pouco tempo impactará também no aumento da pobreza e da desigualdade social, na cadeia alimentar, e na escassez de recursos investidos em aspectos socioambientais. Além disso, enfrentar a crise da covid-19 vem demandando uma série de investimentos em todo o mundo. Em março deste ano, o volume de títulos sociais alcançou um recorde histórico e outros mecanismos de financiamento têm sido utilizados para o combate a crise, como por exemplo, o programa Pandemic Emergency Financing (PEF) do Banco Mundial. Adicionalmente, órgãos reguladores vêm divulgando diretrizes para aprovação e emissão mais rápida de títulos utilizados para projetos de combate ao coronavírus.

Neste sentido e respondendo à pergunta inicial, a atual pandemia veio como um catalisador para a implementação das estratégias ESG. Ações e tendências que já vinham se desenvolvendo com relação a estes aspectos agora passam a ser vistas com maior senso de urgência e as empresas estão sendo forçadas a gerenciar de perto o capital social e humano, revisitar estratégias para incorporar o verdadeiro compromisso com as questões ESG e fica cada vez mais evidente a necessidade dos conselhos de administração e executivos incorporem nas suas estratégias e práticas de governança corporativa a responsabilidade por adotarem práticas ESG efetivas perante a empresa e a sociedade.  Essa responsabilidade esta inclusive alinhada com as orientações do Código Brasileiro de Governança Corporativa, que inclui como diretriz que o conselho  de administração considere nas estratégias de negócios os impactos das atividades da companhia na sociedade e no meio ambiente, visando a perenidade da companhia e a criação de valor no longo prazo, e que o diretor-presidente e a diretoria sejam avaliados com base em metas de desempenho financeiras e não financeiras (que inclui aspectos ESG) alinhadas com os valores e os princípios éticos da Companhia.

A recuperação da crise da covid-19 levará tempo e, neste momento, porém, muito do que estamos passando aponta para um ambiente empresarial mais colaborativo, consciente, com propósitos de geração de valor para todos os envolvidos. Em um mundo em que as expectativas da sociedade com relação às empresas são crescentes, a incorporação dos aspectos ESG ganha cada vez mais importância e vantagem competitiva nas organizações. Espera-se portanto, como cenário pós Covid-19, que as organizações sustentem uma cultura de maior empatia e responsabilização relacionados aos aspectos sócio ambientais considerados crônicos no mundo.

* Eliete Martins é sócia de consultoria em ESG da KPMG; Ricardo Zibas é sócio-diretor de consultoria em ESG da KPMG

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