A corte ao poder

A corte ao poder

José Renato Nalini*

02 de fevereiro de 2022 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Existe uma categoria de pessoas que se inebria de orbitar em torno ao poder. Qualquer poder. O poder político, pois os cargos são fonte de favores, benesses, tráfico de influências e sua proximidade mimetiza o personagem mariposa. Ele surge do nada, nem sempre subrepiticiamente e logo se converte em amigo de infância do detentor da função.

Passa a cumulá-lo de gentilezas. Generoso, é pródigo em presentes, atenções e delicadezas. Quer estar sempre por perto. Convida e faz com que o alvo de sua devoção também seja convidado.

Corteja ainda o poder da fama. Quer estar no rol dos íntimos daqueles bafejados pelo dom da celebridade. É dolorido não constar da seletíssima lista de convidados. Tudo faz para não deixar de ser assunto e o ápice é aparecer nas colunas sociais.

Outra preferência do cortejador é a riqueza. Nem sempre coincide com poder político ou com a figuração no hall da fama. Há milionários que prefeririam passar desapercebidos, pois assim não se levantariam aquelas velhas suposições sobre a origem de sua fortuna.

Frequentar rodas sociais que não seriam a sua é um prazer inaudito. Parece existir certa osmose: quem se acerca desse mundo assimila um pouco do savoir faire, passa a ser mais raffiné, cresce em autoestima.

Quanto dura essa bajulação?

O tempo exato da permanência no cargo ou função, da condição de aura ou glória que envolve o incensado ou enquanto persistir sua riqueza.

Qualquer ocorrência inversa à situação que ensejou o culto à personalidade vai registrar a fuga do mesureiro. De cortesão, passa a ser fugitivo. Não mais a sabujice, a hipócrita submissão, os elogios exagerados, a presença constante. Não mais presentes, nem mais convites.

O alvo passa a ser quem assumiu o cargo, pois a tática do cortesão é adular a função. A fonte de poder, não a pessoa. Pessoas são irrelevantes. E as reverências mudam facilmente de destinatário, sem qualquer constrangimento, pudor ou hesitação. O cortejador não tem espinha dorsal. Se tiver, ela é complacente. Verga-se ao sabor dos interesses e das conveniências.

Essa raça cresce indefinidamente num país periférico, em que a educação nunca foi levada a sério. A proposta do governo é adestrar a molecada, fazendo-a decorar informações e a repeti-las sem pensar, assim que solicitada. Não interessa à política profissional desprovida de ética, preparar uma cidadania crítica. Ela passaria a exigir compostura, dignidade, atenção à coisa pública e ao interesse coletivo. Não é a praxe no Brasil do retrocesso, em que a democracia representativa está ao rés do chão, desacreditada e repudiada por uma população que sofre.

Não há perspectivas de mudanças substanciais, numa nação que assiste, inerte e omissa, a mais de vinte milhões de filhos seus passarem fome. Que não se indigna ante a criminosa destruição da última grande floresta tropical do planeta. Que aceita a destinação de quase seis bilhões de reais para propaganda eleitoral, sem fazer algo para que a juventude venha a se interessar pela política, pois – infelizmente – ainda dependemos dela. A cultura monárquica persistiu, num país em que não existe comportamento republicano. É o que também ajuda a explicar a tática das homenagens, a legião de bajuladores e esse exercício ignóbil de adular, para obter algo em troca.

Esse nefasto exercício se retroalimenta porque prevalece um acordo tácito de que ao se chegar a uma função que concentra poder e autoridade, atingiu-se também a própria vez de se locupletar. Não foi aqui o terreno fértil para expressões como “ou moralizemos a República, ou nos locupletemos todos?”. O imortal Stanislaw Ponte Preta, que bem enxergou o FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que assola o país, hoje talvez viesse a chorar, tamanhas as indecências constatadas em tantos ambientes.

A mocidade tem razão em sua repulsa pela política profissional. Mas o Brasil não resistirá a mais um período de descalabro, desvario e delírio. Chega de desfaçatez. Aquela minoria que ainda não perdeu a razão, que não foi inoculada pelo vírus do fanatismo – que, infelizmente, não tem vacina – precisa alertar o jovem e mostrar a ele que é preciso reagir. Já se falou em converter a ira em voto. Eu ratifico e proponho que se transforme a inércia, o desânimo, o desalento e a descrença em voto.

O voto em pessoas sérias e éticas – e elas, pasmem! até existem! – fará muito bem a uma República ainda não republicana. Trará gente honesta e de bem para os postos eletivos. Por acréscimo, reduzirá, substancialmente, a raça infecta dos cortesãos do poder, da fama e da riqueza.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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