‘A corrupção foi adotada como modelo de negócio profissional’, diz procurador sobre Odebrecht

‘A corrupção foi adotada como modelo de negócio profissional’, diz procurador sobre Odebrecht

Coordenador da Lava Jato faz duras críticas à maior empreiteira do País ao explicar denúncia contra funcionários do 'setor de propina' da empresa

Mateus Coutinho, enviado especial a Curitiba, Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

28 Abril 2016 | 15h58

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O procurador da República Deltan Dallagnol. Foto: Mateus Coutinho/Estadão

O coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, afirmou nesta quinta-feira, 28, que a Odebrecht durante a gestão de Marcelo Odebrecht, herdeiro da família que fundou a maior construtora do País, implementou um sistema profissional de pagamento de propinas. “Se trata de uma sofisticação dos métodos de lavagem de dinheiro, a corrupção foi adotada como modelo de negocio profissional”, afirmou Dallagnol.

A fala do procurador da República foi feita ao explicar uma das denúncias oferecidas pela força-tarefa nesta quinta e que tem como alvos os funcionários do “departamento de propinas” da Odebrecht, o próprio Marcelo Odebrecht e o casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura, que trabalharam nas campanhas eleitorais de Dilma Rousseff (2010 e 2014) e Lula (2006). Ao todo, foram 12 denunciados nesta acusação, incluindo Maria Lúcia Tavares, ex-secretária da Odebrecht e primeira funcionária da empreiteira a decidir colaborar com as investigações e admitir a existência do setor de pagamentos ilegais da empresa. As descobertas das operações Acarajé e Xepa embasaram esta denúncia.

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Na acusação, a Procuradoria da República aponta que a Odebrecht, por meio do Setor de Operações Estruturadas, nome oficial do “departamento da propina” e com o apoio de doleiros teria lavado US$ 6,4 milhões no exterior, e R$ 23,5 milhões no Brasil. O Ministério Público Federal identificou que os R$ 23,5 milhões foi destinado ao casal de marqueteiros por meio  45 pagamentos “por fora” realizados de 24 de outubro 2014, durante o período eleitoral, até 22 de maio 2015.  Além do casal de marqueteiros, as investigações da Lava Jato revelaram vários outros destinatários dos pagamentos ilícitos da empresa, que ainda estão sendo apurados e não foram alvos desta denúncia.

Ao explicar o funcionamento do esquema profissionalizado, Deltan apontou que “se adotavam muitas cautelas profissionais para que os pagamentos ilícitos fossem feitos sem serem descobertos” que iam desde o software My Web Day, utilizado para a contabilidade da propina, o programa de comunicação entre os funcionários por meio de códigos chamado Drousys e até as cautelas para fazer entregas de dinheiro em endereços diferentes. “Enquanto empresas estruturam sistemas de compliance, eles (Odebrecht) criaram um sistema pelo contrário, para permitir o pagamento de propinas”, afirmou Dallagnol.

Marcelo. O coordenador da força-tarefa disse ainda que todo o funcionamento e estruturação do setor de propinas teve aval de Marcelo Odebrecht, que com o avanço da Lava Jato também teria ordenado o fim do funcionamento do departamento. “A partir de Marcelo houve orientação formal para que setor fosse se desestruturando ao longo do tempo. Existiu também orientação dele para que executivos fossem para o exterior, inclusive providenciaram vistos para os executivos para dificultar o aprofundamento das investigações”, seguiu o procurador da República.

Dallagnol ainda fez duras críticas à postura da empreiteira que, desde o começo das investigações, questionou a operação Lava Jato e negou os crimes. “Estamos falando de empresa que negou pratica delitiva a todo o tempo, uma empresa que buscou dar interpretações a toda hora diferentes das que eram mais evidentes”, afirmou o procurador. Desde que a Lava Jato chegou ao “departamento de propina” a empreiteira anunciou que vai colaborar com as investigações.

 

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