‘A corrupção está longe do volume morto’, diz procurador

Investigações de nova etapa da Lava Jato apontam para pagamento de propina sobre operação com créditos consignados no Ministério de Planejamento, 'transbordando as fronteiras da Petrobrás'; PF afirma que ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, fazia parte do 'núcleo duro' da corrupção

Redação

13 de agosto de 2015 | 11h46

João Vaccari estava preso na PF, em Curitiba. Foto: Geraldo Bubniak/AGB

João Vaccari, preso em Curitiba, foi citado em nova fase da Lava Jato. Foto: Geraldo Bubniak/AGB

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Jullia Affonso e Andreza Matais

O procurador da República Roberson Henrique Pozzobon, da força-tarefa da Operação Lava Jato, nesta quinta-feira, 13, usou como referência a crise hídrica em São Paulo, que nos últimos meses se serve do volume morto da represa que abastece a metrópole para falar da corrupção que vem sendo apurada pelos investigadores. Revelando perplexidade, Pozzobon disse que ‘o volume de corrupção está longe do volume morto’. O procurador participa da Operação Pixuleco II, 18º capítulo da Lava Jato.

‘A corrupção está longe do volume morto’, diz procurador

PF mira em escritório de advocacia ligado ao PT na Pixuleco II

As investigações desta fase apontam para pagamento de propinas sobre operações com créditos consignados envolvendo supostamente o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto – preso em Curitiba. A PF diz que Vaccari integrava o ‘núcleo duro’ da corrupção.

“Qual é a ligação desse esquema criminoso que possivelmente reflete no Ministério do Planejamento com a Operação Lava Jato? A ligação é visceral”, disse o procurador. “O que nós vemos nessa nova fase Pixuleco II é que esse grande esquema ilícito transbordou essas fronteiras.”

‘Chambinho’, preso na Pixuleco II, é próximo da cúpula do PT

A Pixuleco II é uma continuidade da fase de 3 de agosto, que levou o ex-ministro José Dirceu para a cadeia. Nesta quinta, 13, foi preso o advogado Alexandre Romano, ex-vereador de Americana, interior de São Paulo, suposto operador de propinas que antecedeu o lobista Milton Pascowitch, delator da Lava Jato.

O procurador cita o papel da Consist, empresa que operou os valores dos consignados e distribuiu para beneficiários seguindo orientação de Vaccari. “Infelizmente, ao contrário dos nossos reservatórios de água, o que se verifica aqui é que esse volume de propina está longe de atingir o volume morto. É muito preocupante, inclusive, pelo fato de que no mês passado houve repasses por parte de empresas da Consist para empresas indicadas por Alexandre Romano. A mensagem que deve ser lida aqui é não é uma mensagem de descrença, pelo contrário, o que se deve ter aqui é que o esquema de corrupção é grande, é sistemático e deve ser combatido de forma veemente”, disse Pozzobon.

O volume morto é a reserva de água profunda das represas.

alexandre-chambinho

Segundo o procurador, o pontapé inicial das investigações da Pixuleco II foi a celebração do acordo de delação premiada com Pascowitch. O procurador afirmou que o delator relatou ter sido procurado pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, ‘o qual lhe propôs que passasse a receber em favor do partido, valores do grupo Consist Software’.

“Como foi revelado pelo próprio Milton Pascowitch, ele represava os valores que ele recebia de empresas que pagavam propina no âmbito da Petrobrás, especificamente, a empresa Hope e a Personal, em dinheiro, e utilizava esse represamento para abrir as comportas para o senhor João Vaccari (ex-tesoureiro do PT) periodicamente”, explicou Roberson Pozzobon.

O procurador explicou. “Segundo confidenciado por Vaccari ao operador, ele estava tendo dificuldade de receber esses valores do operador que até então desenvolvia essas atividades, de sobrenome Romano. A forma foi escolhida mediante ajustes entre a Consist e Milton Pascowitch para o repasse dos valores já é de todos conhecida que é a celebração de contratos ideologicamente falsos, com a posterior emissão de notas fiscais frias. Essa forma é interessante destacar é bastante conhecida e amplamente utilizada nesses esquemas de corrupção revelados na Operação Lava Jato, porque é uma via de mão dupla: ela interessa tanto ao operador, na medida em que permite maquiar o repasse das propinas, quanto também à empresa pagadora dos valores espúrios. Isso que permite que ela formalmente e justificadamente possa retirar valores da sua conta e transferir esses valores aos beneficiários finais dos valores ilícitos. Estima-se que Milton Pascowitch tenha efetuado os repasses na ordem de R$ 15 milhões, recebidos esses valores da Consist e posteriormente depois de reter do custo de emissão das notas que ele alega ser em torno de 20% e seu percentual da transação, que ele menciona ser de 15%, repassou esse valor em dinheiro ao senhor João Vaccari.”

Segundo Roberson Pozzobon, o depoimento dos gestores da empresa Consist permitiu que fosse revelado que o esquema era ‘muito maior’ que os R$ 15 milhões. “O que se verificou em verdade foi que aproximadamente outros R$ 40 milhões foram repassados a partir da Consist para empresas aparentemente de fachada ou empresas que não haviam prestado o serviço da forma como retratado nas notas fiscais às empresas do grupo Consist. Essas empresas, segundo confidenciado pelo próprio gestor da Consist, elas eram indicadas por Alexandre Romano e incluíam empresas em que ele próprio figurava como sócio ou escritórios de advocacia.”

COM A PALAVRA, RUSSO

O presidente do diretório municipal do PT, Marco Bariao, o ‘Russo’, informou que Romano não é mais filiado ao partido. “O senhor Alexandre Correa de Oliveira Romano foi filiado ao PT de Setembro de 1999 a 22 de Setembro de 2005′.

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