A coragem da esperança

A coragem da esperança

José Renato Nalini*

24 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Esse o título do livro de Leandro Karnal, uma caprichada publicação da editora Planeta. Um livro bem editado, consistente na forma e no conteúdo. O prefácio de Ignácio de Loyola Brandão detecta o singular talento de Karnal, “esse homem tem um jeito ameno de contar sem pompa, sem dizer “sou mais eu”, sem “veja o tanto de coisas que sei e vou repartir com você”.

Na Introdução, o objetivo do livro: “cada dia difícil da nossa experiência de pandemia, crise econômica e tensão política parecia indicar a vontade de pensar, superar, acreditar de novo, erguer o dique da razão contra a maré desafiadora ao redor”. É verdade. O mundo precisa de esperança. Potencializada neste ano tão desafiador.

O quarto volume com as crônicas publicadas no “Estadão” foi pensado em seis partes: vida em migalhas, memórias, a cultura e o poder, o desafio da comunicação, ver e ouvir e a ficção do real. À exceção de uma, todas elas terminam com explicitação da esperança.

Isso não inibe a menção a aspectos melancólicos da vida de todos: “Você já se deu conta de que, quando você morrer, o nome dos seus avós terá sido esquecido, já que filhos e netos raramente são entusiasmados por árvores genealógicas?”.

Há conselhos úteis, extraíveis da própria experiência do autor, festejado mestre: “Todo professor, pai, orientador, coach, tutor que tem sob seu cuidado alguém mais jovem ou menos experiente, por natureza, deve estimular a pessoa ao esforço máximo. Nenhum orientador pode ser pessimista, azedo, fatalista ou afirmar que é melhor não tentar. Tentar e dar o máximo de si é o caminho mais claro para conseguir algo”.

No momento em que a educação é tão negligenciada, com legiões de jovens preferindo a evasão às preleções que não conseguem competir com a sedução das redes sociais, a geração “nem-nem” precisa contar com orientadores assim. Nessa linha, oportuna a desmistificação da criatividade, que “não é, de fato, um dom natural que teria sido dado a alguns. Ela implica alguns fatos como atenção, estímulo, superação do medo de errar, informações variadas, práticas e aprendizado, especialmente com equívocos passados. Ela também não dispensa o caminho técnico e o aprofundamento na área de algum saber”.

A crônica “Amigos e canalhas” é um atraente hino à verdadeira amizade: “Os amigos se salvam do dilúvio da banalidade, analisam-se, observam-se e lançam um dom precioso e forte: a sinceridade. Para ser amigo de alguém, eu preciso ser comigo mesmo. Não sendo animal nem deus, necessito de outras pessoas. A multidão de dois é fabulosa”.

Todos os candidatos a escritor – e há muitos! A surpreendente Lygia Fagundes Telles costuma dizer: “Onde estás, ó leitor! Hoje só há escritores!” – precisam ler a crônica “A tentação do clichê”. Na sua perspicácia, Leandro Karnal constata: “Estamos quase condenados ao uso do clichê. Pode ser atenuado, parcialmente evitado, porém, como um parente indesejável, ele surge “de mala e cuia” (um clichê regional) à sua soleira”.

Atento observador da realidade, não desconhece algumas das piores características desta era: “A civilidade continua sendo um esforço de mães, pais e professores. Porém, há algo de podre no Reino da Dinamarca. O troglodita está na moda. Usando um neologismo de sonoridade explosiva, a “tosquice” é trending topic. Dizer o que se pensa de forma grosseira, emitir piadas sobre o baixo corporal, assumir preconceitos: tudo parece representar a derrota do esforço de meio milênio na domesticação do selvagem social”. Como em continuidade, prega a gentileza: “vivemos um mundo de coices, pontapés e descasos. Os ogros sempre existiram, provavelmente estivessem mais envergonhados no pântano há algum tempo. Talvez formassem um clube fechado, autorreferente quiçá. De repente, ganharam a praça pública e seus berros calaram quase todas as outras vozes mais tranquilas. Foi o eclipse do sensato e a aurora do ogro do pântano. Como recuperar um pouco da sanidade e da gentileza?”.

Tenho a minha receita: ler mais Leandro Karnal, duas vezes por semana no jornal “O Estado de São Paulo”. Melhor ainda, ler seus livros. E se for possível um superlativo, acompanhá-lo nas redes sociais, um influencer com estilo, erudito e de inexcedível bom gosto. Com ele, sempre se tem o que aprender. Os que têm o privilégio de privar de suas aparições conseguirão ouvir sua voz firme, a excelente dicção, a serena autoridade com que pronuncia frases bem formadas e que impactam os ouvintes. É quase um saboroso exercício áudio-visual.

Paro por aqui, pois o intuito é motivar os leitores a sorverem as deliciosas crônicas de Karnal. Gostei especialmente das ficcionais da parte 6, “A ficção do real”, vereda que, iniciada no verão de 2020, deve ser palmilhada com frequência maior, pois nela o escritor se supera.

Ah! A crônica “Idiotas com iniciativa” é a única a terminar sem o verbete “esperança”, embora substituído por “esperando”. A coragem de Leandro Karnal reacende a nossa esperança em dias melhores, sem pandemia e com o ocaso dos toscos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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