A COP não é pop

A COP não é pop

Para mudar o destino do planeta, é preciso popularizar a pauta do clima

Marco Martins*

18 de novembro de 2021 | 19h00

Marco Martins. Foto: Divulgação

Green bonds, créditos de carbono, metas ambiciosas, economia verde, ESG, ODS etc. Todos esses são termos que ocuparam os jornais e as timelines nos primeiros dias de novembro. Mas não nos deixemos enganar: além da bolha politizada e progressista, a maioria das pessoas não sabe ou não se interessa pelo que aconteceu na COP26, em Glasgow.

Há como culpá-las? Existe uma enorme desconexão entre a COP e o cotidiano das pessoas. Primeiro, a linguagem complexa e técnica, às vezes difícil de entender até por quem acompanha o assunto, que dirá para quem é leigo. Depois, toda pompa e formalidade dos engravatados de Governos de todo o mundo, que aparecem sorrindo e apertando as mãos enquanto assinam “tratados não-vinculantes”, já se tornaram parte de um teatro em que o público sabe de antemão o fim da peça: muito se falará, pouco se fará e estarão todos lá novamente repetindo as mesmas coisas no ano que vem. Com isso, temos falhado sistematicamente em fazer com que a emergência climática seja compreendida pela maior parte da população. 

Felizmente, é fato que hoje a importância da pauta da Sustentabilidade é muito maior do que já foi. A discussão começou a ser feita na imprensa, ganhou o noticiário e vimos nessa COP26 uma grande presença de ativistas e da Sociedade Civil Organizada. Mas, apesar dos esforços deles, que em maioria arcaram com os próprios custos, ainda não é suficiente. Ainda mais quando muitos desses ativistas e organizações são barrados e não podem sequer acompanhar as negociações feitas em Glasgow.  Os acordos lá firmados são acompanhados de um profundo sentimento de que não serão cumpridos e ao fim, novamente, a sensação que fica para quem liga o rádio é de “na volta a gente compra”. 

Os negacionistas do clima, incluindo Bolsonaro, já perceberam isso há tempos. É por isso que muitos nem ao menos se dão ao trabalho de fingir que se importam. Sabem que sua estratégia é a que ressoa com maior efetividade na população. Dialogam no extremo oposto do complexo tecnicismo oferecido pela COP. Para eles, ONGs são formadas por bandidos, indígenas são “atrasados”, “vagabundos” ou “nem são índios” (haja vista as terríveis notícias falsas sobre a ativista indígena Txai Suru, que discursou na COP26), a Amazônia e outras florestas são riquezas a serem exploradas (como disse nosso Ministro do Meio Ambiente por lá) e os que gritam para proteger o meio ambiente ou são apenas alarmistas ou são financiados pelos que não querem que o país se desenvolva. Eles sabem que não é em Glasgow que se tomam as ações reais para impedir que continuem lucrando com a destruição do meio-ambiente, e sim, em seus países. E focam em conquistar aqueles que têm o verdadeiro poder para influenciar a mudança dessa situação: a população.

As Marias e os Josés do nosso Brasil, no fim das contas, são a maior parte dos eleitores e consumidores. São a opinião pública a quem eles deveriam prestar contas. E se para quem precisa colocar comida na mesa hoje 2030 já parece longe, 2050 é uma eternidade. Precisamos abrir mão do “climatês” e focar no português. Comunicar que as enchentes, secas, tempestades, recordes históricos de frio e de calor tem relação direta com a destruição do meio-ambiente. Que tem relação direta com o preço da carne, do trigo e do café. Que nossas vidas já têm sido negativamente afetadas e que irão piorar muito caso não haja uma mudança drástica das ações de governos e corporações. 

Retirar do imaginário popular que a emergência climática é uma pauta de gringos engravatados em um evento chique, difícil de entender e em que pessoas comuns são meras coadjuvantes, é urgente. A COP não é POP, e o clima não poupa ninguém. 

*Marco Martins é urbanista e ativista político, lidera o Movimento Acredito no estado de São Paulo e é dirigente da REDE Sustentabilidade, sendo um dos organizadores dos atos pelo Fora Bolsonaro na Capital.

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