A contraditória retórica anti-China

A contraditória retórica anti-China

Guilherme Rizzo Amaral*

07 de abril de 2020 | 08h00

Guilherme Rizzo Amaral. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os últimos dias têm sido férteis não só em dificuldades e restrições, mas também na disseminação de notícias exacerbadas e, não raro, falsas. A busca cega por um culpado pela atual crise tem feito alguns apontar o dedo para a China e, irrefletidamente, assumir posições que pouco correspondem a verdade.

Mas, se o tempo é apto à reflexão, é importante lembrar como a história da China pode ser útil para a compreensão não do vírus que nos circunda, mas, sim, do modo como tratamos a nossa visão de nação e os nossos projetos de futuro.

Entre 1958 e 1961, Mao Zedong lançou uma campanha intitulada “o Grande Salto para Frente”, destinada a transformar a China agrária em potência industrial. Camponeses foram obrigados a abandonar suas lavouras para trabalhar na indústria então incipiente. Famílias tiveram de entregar seus artefatos de metal, incluindo ferramentas, joias e panelas, para que fossem derretidos e utilizados em ligas metálicas. As fornalhas eram abastecidas de madeira vinda tanto de florestas completamente devastadas quanto dos móveis e das portas das casas de cidadãos chineses. O resultado foi desastroso: como já apontavam os intelectuais da época – desacreditados por Mao – o metal obtido era de baixíssima qualidade. Mas não só: estima-se que nada menos do que 40 milhões de chineses tenham morrido de fome nesse período.

Seis décadas depois, temos no Brasil uma campanha, também lançada pelo mandatário maior da nação, intitulada de “O Brasil não pode parar”. Sua premissa fundamental: mais brasileiros morrerão pela recessão econômica causada por medidas de isolamento social do que pela covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Tal qual na China de Mao, no Brasil de Bolsonaro ignoram-se todos os estudos científicos que apontam para o equívoco crasso da premissa.

Voltemos à China. De 1966 a 1976, o país viveu a chamada Revolução Cultural. Forma-se a Guarda Vermelha, composta majoritariamente de jovens, que passam a viajar pelo país não apenas pregando os ensinamentos de Mao e empunhando seu livro vermelho, como também atacando violentamente todos que se opusessem ou mesmo que se mostrassem indiferentes a tais ensinamentos. As grandes vítimas desse período foram os intelectuais, humilhados em praça pública, torturados, exilados ou mortos. A acusação básica que se fazia a essas pessoas era a de que seriam contrárias à revolução comunista ou mesmo agentes do capitalismo. O comando da perseguição cabia à chamada “Gangue dos Quatro”, liderada pela esposa de Mao, Jiang Qing.

No Brasil, fala-se num “Gabinete do Ódio”, que seria liderado, também, pelo chefe da nação. Abaixo daquele, milhares de seguidores espalham fake news sobre todo e qualquer intelectual que alerte sobre os riscos da covid-19 e do relaxamento das medidas de contenção ao novo coronavírus. É clara a tentativa de destruição de reputações: esses intelectuais devem estar a serviço da China, ou de George Soros, ou de Bill Gates, ou do PT, ou da “Globolixo”. E assim por diante. Não sobra para ninguém. Mesmo quem nada diz ou posta é acusado de infantil, ingênuo ou massa de manobra da esquerda que conspira contra os interesses da nação.

Essas mesmas pessoas que culpam a “ditadura chinesa” pela crise do novo coronavírus saíram às ruas, no dia 15 de março, para pedir o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Não seria absolutamente contraditório protestar contra uma ditadura estrangeira e, ao mesmo tempo, protestar a favor da instituição de uma ditadura em seu próprio país?

A dificuldade de se enxergar essa contradição decorre da recorrente confusão entre patriotismo e nacionalismo. Como sintetiza Mário Vargas Llosa, enquanto o patriotismo “é um sentimento benévolo, de solidariedade e afeto à terra em que nasceu, aos seus ancestrais, à língua que fala, à história vivida pelos seus”, o nacionalismo “é uma paixão negativa, uma perniciosa afirmação e defesa do que é próprio contra o estrangeiro, como se nacional constituísse um valor em si mesmo, algo superior, uma ideia que é fonte de racismo, de discriminação e de encerramento intelectual”.

Muitos dos que se dizem hoje patriotas são, em verdade, nacionalistas. Não lutam pelos ideais da democracia. Lutam, sim, pela prevalência de uma narrativa própria e alheia à realidade, quase sempre em detrimento daqueles mesmos ideais. Daí porque faz sentido seu constante ataque à ciência e à informação. Como ensina o psicólogo e ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Daniel Kahneman, é mais fácil construir uma história coerente quando se sabe pouco; quando há menos peças para se formar o quebra-cabeças.

Como tudo isso acabará no Brasil, ninguém sabe. Na China, a campanha do Grande Salto para Frente e a Revolução Cultural foram reconhecidas pelo Partido Comunista Chinês como completos equívocos. Os integrantes da Gangue dos Quatro, inclusive a então viúva de Mao, foram condenados a severas penas em julgamento televisionado para todo o país em 1981, com a presença de mais de 300 jornalistas.

A partir de 1978, a China iniciou sua rápida abertura econômica sob o comando de Deng Xiaoping, cujo lema bem define a guinada de uma visão ideológica e obscurantista para outra, extremamente pragmática: “não importa se o gato é preto ou branco, contanto que ele apanhe o rato”. Surge o capitalismo “com características chinesas”, que retirou cerca de 750 milhões de pessoas da pobreza e colocou o país entre as maiores potências econômicas e militares do mundo.

Sabemos que o modelo chinês carece de elementos essenciais à democracia, como liberdade de expressão, livre iniciativa e direito ao voto. Não se propugna sua adoção no Brasil, que precisa seguir seu próprio caminho, alinhado com os valores democráticos bem delineados na Constituição da República. O que se propõe, aqui, é uma reflexão mais detida sobre o caldo social e político que começa a tomar forma no país, suas idiossincrasias, perigos e possíveis desfechos. Para isso, o exemplo chinês diz muito. Mas é preciso se estar disposto a ouvir.

*Guilherme Rizzo Amaral, doutor em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e sócio-coordenador do Asian Desk de Souto Correa Advogados

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