A comédia no Planalto

A comédia no Planalto

Rodrigo Augusto Prando*

05 de março de 2020 | 12h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

O presidente Jair Bolsonaro notabilizou-se, até o momento, em seu governo, pela opção pelo presidencialismo de confrontação, não se dispondo ao presidencialismo de coalizão (como o do governo FHC) e nem ao presidencialismo de cooptação (no governo Lula com o mensalão).

Bolsonaro e os bolsonaristas dividiram os atores políticos em representantes da “nova” e os da “velha” política. Obviamente, as promessas do “novo”, diferente e melhor, estão alicerçadas sobre as ideias e práticas governamentais e os demais, representantes da velha política, são portadores do atraso, do toma-lá-dá-cá, do fisiologismo e, no limite, da corrupção. Foi uma opção política e como tal é válida, mas traz, sem seu bojo, consequências, positivas e negativas.

Além disso, o estilo pessoal de Bolsonaro foi, durante a eleição e até uma boa parte do primeiro ano de governo, entendido como um comportamento sincero, autêntico. Suas falas ou discursos não mudaram após a eleição. O Bolsonaro de antes, agressivo verbalmente com os adversários (convertidos em inimigos), carinhoso com os apoiadores, pouco versado sobre economia e com escasso diálogo político com o Congresso Nacional é o mesmo Bolsonaro de hoje, o presidente da república. Aqui, caro leitor, não há estelionato eleitoral. Ele é, nos dias que correm, o que sempre foi e, por isso, foi ungido, democraticamente, pelo voto do eleitor. Bolsonaro, pessoa, não mudou, todavia, sua função institucional é outra, representando a república, seus valores e com juramento público de cumprir e defender a Constituição Brasileira.  Houve, entre jornalistas e analistas políticos, os que acreditaram, inicialmente, que, em algum momento, o comportamento belicoso do presidente cessaria e haveria, depois, a força da liturgia do cargo, da responsabilidade que a figura presidencial reclama. Houve, também, os que julgavam suas falas, sua relação dura e, às vezes, grosseira e preconceituosa, com a imprensa, como fruto daquela sinceridade e autenticidade inerentes às situações em que as ações emocionais ganhavam espaço em detrimento das ações racionais. Não é bem assim. Os fatos, concretamente, indicam que as ações discursivas, entrevistas e falas aos seus apoiadores tem pouca espontaneidade e são originadas em temas previamente estabelecidos e bem planejados. No livro “Os engenheiros do caos”, de Giuliano Da Empoli, temos o invulgar trecho:

“No mundo de Donald Trump, de Boris Johnson e de Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal se está comentando um evento, e esse já é eclipsado por um outro, numa espiral infinita que catalisa a atenção e satura a cena midiática. […] por trás das aparências extremadas do Carnaval populista, esconde-se o trabalho feroz de dezenas de spin doctors [consultores políticos], ideólogos e, cada vez mais, cientistas especializados em Bid Data, sem os quais os líderes do novo populismo jamais teriam chegado ao poder”.

Note-se que, com isso, Bolsonaro ganha enorme visibilidade na mídia, na mesma mídia que ele destrata e é ofendida por seus apoiadores. Some-se o enorme potencial de engajamento nas redes sociais e temos, pela primeira vez, um presidente mais ligado à imagem, à forma, do que ao conteúdo. Às favas com o conteúdo, importa a performance, a teatralização, um papel a ser encenado. Claro que não afirmo que o presidente apenas encena e que, nele, não haja a força de acreditar naquilo que diz e nos valores que publiciza. Ele crê e sente-se à vontade como Comandante-em-Chefe do presidencialismo de confrontação.

No dia 04/03/20, a teatralidade presidencial ganhou amplitude com a presença de um comediante profissional fantasiado de Bolsonaro, que chegou junto à comitiva presidencial. E o referido comediante usou de sua arte para – com escárnio – tentar “responder” as perguntas dos jornalistas, já que o Bolsonaro real recusou-se a explicar o fraco crescimento do PIB brasileiro. Faz-se necessário enfatizar que o comediante apenas tentou responder, visto que os jornalistas insistiam nas declarações do presidente e não do humorista. Completou-se o quadro com a jocosa distribuição de bananas (frutas) por parte do comediante para os jornalistas em alusão às bananas (gestos) de desdém do presidente que noutras ocasiões as enviou aos profissionais da imprensa. Visivelmente irritados, os jornalistas se retiraram e não aceitaram nem as respostas ou as bananas ofertas pelo dueto presidencial-humorístico. Desta forma, nenhum comentário técnico ou político por parte de Bolsonaro foi aproveitado.

Sabidamente, a conjugação de múltiplos fatores levaram à uma eleição sui generis de Bolsonaro em 2018. Não só seu estilo eleitoral, mas, especialmente, o seu presidencialismo de confrontação são inéditos em nosso país. Com um comediante no Planalto, o profissional, vale ressaltar, Bolsonaro também inova, operando uma inversão. Geralmente, são os políticos e poderosos os alvos do humor, do escárnio e da ácida ironia dos artistas e comediantes, mas, com Bolsonaro, é o próprio presidente que promove a comédia e torna jornalistas, especialistas e opositores objetos do riso de sua plateia. Para George Minois, em “História do riso e do escárnio”, há nítida noção de que “o riso estava apenas do lado da oposição; era uma zombaria mais ou menos subversiva e, como tal, estreitamente vigiada pelo poder”. E mais: “o humor torna-se um instrumento de luta contra o poder”. Bolsonaro inverteu: de instrumento contra o poder, o humor e o humorista foram instrumentalizados pelo poder.  Aliás, aqui, um ponto fundamental: qualquer comediante tem, diante de si, seus espectadores, sua plateia, cujo objetivo é entreter e fazer rir. Se toda a atuação presidencial é dotada de sentido, de planejamento, quem é sua plateia? Quem o presidente da república quer fazer rir? Ao que tudo indica, satisfaz assaz Bolsonaro ter o riso de seus apoiadores, dos bolsonaristas raiz. No estudo do discurso político, o orador sempre encontra três públicos: os que são favoráveis, os que discordam e os indecisos – são estes últimos os que devem ser conquistados, já que os dois primeiros já tomaram posição e será pouco provável a mudança de opinião.

Isso tudo tem gerado o apoio, o riso e os aplausos dos bolsonaristas, contudo, avolumam-se o descontentamento dos atores políticos (deputados e senadores adversários e, até, de apoiadores), dos formadores de opinião, da imprensa, das lideranças institucionais e, ainda, do mercado. Já se aventa a hipótese de que o método de governar de Bolsonaro pode ser um dos elementos que contribui para não só este fraco resultado do PIB, mas, também, pela constante dificuldade de articulação e de normalidade política. Há quem diga – e com razão – que Bolsonaro venceu mesmo tendo sido ignorado e desacreditado pelo establishment, pelos jornalistas e analistas políticos. No entanto, se a estratégia adotada para ganhar a eleição foi, eleitoralmente, acertada, a dúvida é se ao continuar a ser usada no decorrer do mandato trará a consolidação do poder (com a reeleição em 2022) ou a perda do poder (com a derrota eleitoral ou por força de uma crise política-institucional).

Bolsonaro e os bolsonaristas vão, cotidianamente, avançado em sua estratégia de confronto. Até onde irão? Difícil de responder. Terão êxito nesta estratégia? Isso dependerá dos eleitores, da sociedade e das instituições republicanas.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e poesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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