A ciência não é um ‘flash’

A ciência não é um ‘flash’

Roberto Imbuzeiro Oliveira*

29 de julho de 2020 | 09h00

Roberto Imbuzeiro Oliveira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Este #CientistaTrabalhando é, também, um pai que às vezes se rende a ver a série do herói “Flash” com os filhos. Por coincidência, o homem mais rápido do mundo conta com uma equipe de cientistas para apoiá-lo. Quando há algum problema, logo um deles tem uma ideia, outro o complementa e um terceiro completa a frase do segundo, numa espécie de raciocínio em cadeia. Daí para se derrotar o vilão da vez é um pulo.

A ciência da vida real, feita por pessoas como eu, não é um “flash”. Às vezes, é preciso muito trabalho para se chegar a um palpite novo ou encontrar um fenômeno desconhecido. Além disso, achar uma novidade é só uma parte do processo. A ciência só se consuma quando esta novidade é testada da forma mais dura, metódica e precisa possível. Este processo tem ainda que deixar um registro público, para que outras pessoas tirem suas próprias conclusões.

A ciência de verdade é complicada, difícil e tem suas limitações. Mesmo assim, ela nos traz muitos benefícios tangíveis. Por outro lado, é muito mais emocionante que a do seriado. Ser cientista no mundo real é participar de um grande épico cheio de surpresas, decepções, viradas de trama e algumas vitórias fabulosas, mais até para “Senhor dos Anéis” do que para “Flash”.

Mesmo assim, não seria nada mal contar com os amigos do Flash neste momento de COVID19. No universo do herói, os cientistas resolvem qualquer parada em alguns instantes, sem jamais errar. No nosso mundo, a ciência é lenta, às vezes confusa e, pela sua própria estrutura, nunca chega à palavra final. Com isso, abre-se um nicho de mercado para “cientistas de faz-de-conta” impressionarem o público com afirmações categóricas sobre a pandemia.

Lidar com as ilusões ao redor da ciência é sempre um desafio. É importante dizer que divulgação da ciência e o imaginário dos cientistas também parecem criar esperanças falsas. Por exemplo, pessoas da minha idade foram expostos à ideia de “dominar o mundo via ciência” e viram muitas matérias sobre “cura da Aids”. Será que isso não deformou nossas expectativas?

Por outro lado, a utilidade da ciência na crise atual é muito clara. Graças aos alertas dos cientistas, o Brasil e o mundo já vinham se preparando para novas doenças respiratórias. Agora, com a crise deflagrada, vê-se um enorme esforço coletivo internacional para conseguir uma cura em tempo recorde. As medidas de distanciamento social também podem ser avaliadas e monitoradas cientificamente.

A ciência não é uma panaceia para os males do mundo. É uma bela história coletiva de onde tiramos ferramentas para encarar as coisas, incluindo a COVID-19. Precisamos dela para dar a melhor resposta a esta e a outras crises, sem ter de contar com heróis ou fantasias perigosas.

*Roberto Imbuzeiro Oliveira, matemático e pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Esta coluna foi produzida especialmente para a campanha #CientistaTrabalhando, que celebra o Dia Nacional da Ciência. Ao longo do mês de julho, colunistas cedem seus espaços para abordar temas relacionados ao processo científico, em textos escritos por convidados ou por eles próprios

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