A certeza da morte não deve justificar imprudência com a vida

A certeza da morte não deve justificar imprudência com a vida

Rodrigo Ferrarese*

08 de janeiro de 2021 | 14h15

Rodrigo Ferrarese. FOTO: DIVULGAÇÃO

A morte é o destino de todo mundo. Claro! Essa lógica imutável é óbvia, e sempre a dizemos de outra maneira, ao menos uma vez na vida: “a morte é a única certeza que temos”.

Já trazemos essa verdade incrustada dentro de nós e o normal é evitar contato com essa realidade, porque pensar rotineiramente que a morte nos sonda é um tanto depressivo. E certamente não precisamos que ninguém mais fique nos lembrando desse nosso fatídico destino.

Todos os dias você luta contra a morte

Lutamos diariamente contra a morte. Não me refiro a nós, profissionais da saúde, que enfrentamos a morte todos os dias. Aliás, ouso dizer, não é um enfrentamento. Como consolo, muitos de nós entendemos a morte de maneira sublime. Em uma palestra incrível disponível no YouTube, a Dra. Ana Claudia Quintana Arantes, que trabalha com cuidados paliativos, nos diz que a morte é um dia que vale a pena viver.

O fato é que todos nós, seres humanos, lutamos diariamente contra a morte. A todo momento. Quando nos alimentamos de maneira saudável, evitamos a morte. Quando fazemos atividade física, evitamos a morte. Quando atravessamos a rua com atenção, quando colocamos cinto de segurança, quando seguramos um corrimão, quando entregamos nossos pertences ao bandido durante um assalto, quando nos agasalhamos para não ficar doente, quando não nadamos para muito longe no mar, estamos evitando a morte.

Fazemos isso o tempo todo, sem perceber. O instinto de sobrevivência está muito mais presente do que imaginamos.

Por que algumas mortes são mais aceitas do que outras?

A maneira como lidamos com a morte depende muito do momento em que ela acontece, já perceberam? Ela é melhor aceita quando ceifa a vida de um idoso. Se ele for debilitado e doente, ainda é considerada um “alívio”. Da mesma maneira, costuma ser melhor aceita se chega para alguém mais jovem, mas cuja saúde não é mais uma expectativa, como em casos de doenças terminais.

Não aceitamos bem a morte de jovens que se vão inesperadamente. Seja por acidente, violência ou causas naturais.

Enquanto a morte não chega, precisamos celebrar a vida!

A morte é o destino de todo mundo, sim, mas nem por isso devemos banalizá-la. Vamos deixar de lado a saúde pública, o saneamento básico, as vacinas, os hospitais, porque afinal, já vamos morrer mesmo?

Vamos ignorar a segurança pública, aceitar a violência como algo normal, liberar armas para todos e agora é cada um por si porque tanto faz, já vamos morrer mesmo?

Deixaremos a educação de lado, sem sequer considerar o quanto ela impacta na nossa expectativa de vida e quanto fornece melhores condições de saúde, porque já vamos morrer mesmo, para que se importar com tudo isso?

São inúmeros os exemplos de esforços comandados por organizações governamentais e não governamentais para que a vida perpetue e seja a melhor possível. Até porque não só queremos viver, mas queremos viver bem.

A certeza da morte não deve justificar imprudências

A morte é o destino de todo mundo, mas, será que isso é justificativa para seja qual for a atitude, a postura, o comportamento? Outras frases como “todo mundo vai morrer”, “que bom que descansou”, “eu sei como você se sente” também devem ser repensadas. Minha sugestão é: se não sabe o que dizer, fique em silêncio.

A morte é o destino de todo mundo, sim, desde que não seja uma morte imperita, imprudente e negligente. E que isso jamais justifique abandonar métodos de prevenção de doenças ou cuidados básicos com a saúde.

*Rodrigo Ferrarese é formado pela Universidade São Francisco, em Bragança Paulista. Fez residência médica em São Paulo, em ginecologia e obstetrícia no Hospital do Servidor Público Estadual. Atua em cirurgias ginecológicas, cirurgias vaginais, uroginecologia, videocirurgias; (cistos, endometriose), histeroscopias; (pólipos, miomas), doenças do trato genital inferior (HPV), estética genital (laser, radiofrequência, peeling, ninfoplastia), uroginecologia (bexiga caída, prolapso genital, incontinência urinaria) e hormonal (implantes hormonais, chip de beleza, menstruação, pílulas, DIU)

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