A carta de FHC: muito discutida, pouco lida…

A carta de FHC: muito discutida, pouco lida…

Rodrigo Augusto Prando*

25 de setembro de 2018 | 14h14

Rodrigo Augusto Prando. Foto: Arquivo Pessoal

Não faz muito, Fernando Henrique Cardoso – FHC – redigiu e divulgou uma carta destinada aos eleitores brasileiros conclamando-os a escaparem de soluções radicais, autoritárias e, ainda, afirmando que todos seríamos responsáveis para evitar caminhos que aprofundem a crise existente. Houve, como de costume, críticas à missiva de Cardoso, contudo, talvez poucos tenham lido a carta para além de seu texto, pois, num documento como este, além do seu texto, há um contexto. Não foram poucos os que disseram que a carta é inócua, uma pá de cal na candidatura do tucano Alckmin, outros, até, afirmaram que FHC é arrogante e que não entende as novas forças emergentes na sociedade brasileira que clamam por mudanças e renovação.

Todos podem – e devem – fazer uma leitura crítica da carta da FHC, bem como de sua obra pregressa e de sua trajetória de vida. Ninguém está imune às suas próprias contradições, nem mesmo FHC. No entanto, há se ter cautela ao se rotular as intenções do autor não só de uma carta, mas de uma obra voltada à explicação dos fenômenos sociológicos e políticos de nosso país e do mundo contemporâneo.

FHC não é, apenas, FHC: é Fernando Henrique Cardoso, professor Catedrático de Ciência Política da USP, autor de dezenas de livros, artigos científicos e milhares de artigos para os jornais. Teve carreira brilhante e meteórica dentro e fora do Brasil, tendo lecionado nas melhores universidades pelo mundo. Mais ainda: Cardoso foi perseguido e aposentado compulsoriamente pelo Regime Militar brasileiro; depois, teve, além de sua atividade acadêmica, uma ação de intelectual público, fazendo a crítica ao poder, foi, também, um intelectual que contribuiu com a política auxiliando o antigo MDB e, por fim, exerceu o poder, tendo sido Senador, Ministro e Presidente da República. Muitos leitores, aqui, certamente sabem desta trajetória, mas em tempos não só de fake news e, agora, de fake history não custa lembrar. Foi, salvo melhor juízo, Celso Lafer que fez a sagaz observação de que FHC foi caso raro, no mundo, de intelectual que criticou o poder, auxiliou o poder e exerceu o poder.

Foi, portanto, nesta seara intelectual e política que FHC fez sua carreira. Na condição de político, de homem de partido, nunca deixou que a “ética da convicção” lhe soterrasse a “ética da responsabilidade”, assentado na sociologia weberiana. Não foram poucas as vezes que as críticas, justas até, lhe foram dirigidas em momentos que deveria ter a postura de político ao invés de intelectual. Sua carta, assim, tem uma intenção que num contexto eleitoral de enorme ebulição, insultos, ódios declarados e enrustidos, busca deixar claro algo óbvio: nossas escolhas serão para além do quadro das eleições, serão escolhas a ditar os rumos de nossa democracia e de nossa sociedade. Afirmar, por exemplo, que FHC desconhece as forças que são emergentes na sociedade é de uma simplicidade gritante. Ele conhece e, por isso, está tão preocupado. Não foram poucos que à direita ou à esquerda já têm demonstrado, escrito e verbalizado seu desprezo pela democracia, pelo Estado Democrático e Direito e pelos valores republicanos. Apostar no fim da política e dos políticos é bailar com a força em estado bruto, com os desígnios do arbítrio, da intolerância, da censura.
A política existe – inclusive a política ruim – para que os conflitos, em nossa sociedade, se resolvam pacificamente, pelo diálogo e pela construção de consensos. FHC sabe o que é ter sua vida profissional, intelectual e criativa interrompida pela sua perseguição política e pelo arbítrio da força. Fazer crítica, ofender muitas vezes, pelas redes sociais é até simples hodiernamente. Difícil mesmo é ter a coragem de enfrentar, por via dos argumentos, a força das armas numa situação de ausência de liberdades individuais e coletivas.

À guisa de finalização, há alguns tiranetes desavisados que, em seu íntimo, querem enterrar FHC, seu partido, os outros partidos e todo o sistema político, entretanto, não sabem (ou sabem e é isso que querem) o que se erigirá depois. Nossa cultura política é assaz autoritária e nossa história e os dados comprovam isso. Quando trouxeram à tona a expressão “herança maldita” para caracterizar o governo de FHC os seus formuladores não imaginam, provavelmente, que sua narrativa fosse ter tanta aderência, especialmente, dentro do próprio PSDB a ponto de seus principais candidatos esconderem o ex-presidente. A história, caprichosa, apresenta, após decantarem as paixões, seus balanços e esse balanço, até o momento, é francamente favorável a FHC. Por isso, enfim, é importante reler sua carta e não se ater, apenas, ao texto, mas ao contexto e aquilo que ela indica com muita propriedade.

*Rodrigo Augusto Prando é professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp.

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