A cápsula do tempo no Museu Nacional/UFRJ

A cápsula do tempo no Museu Nacional/UFRJ

Ricardo Oriá e Alexander W. A. Kellner*

22 de janeiro de 2022 | 08h00

Ricardo Oriá e Alexander W. A. Kellner. FOTO: DIVULGAÇÃO

Somos seres históricos e uma das dimensões dessa condição social é o fato de que vivemos em um determinado tempo e espaço e isso confere historicidade às experiências humanas.

O homem se sabe mortal e, no decorrer da história, movido por um interesse de preservação da própria espécie, adotou práticas sociais de colecionar e conservar registros de sua trajetória. Eis que surgem os museus, arquivos e bibliotecas como importantes suportes da memória. Nesse contexto de “desejo de memória” inerente à condição humana, podemos também destacar a prática de se construir artefatos físicos para preservar documentos e registros para a posteridade. São as chamadas cápsulas do tempo.

Segundo William Jarvis, na sua obra Time Capsules: a Cultural History (2003), as cápsulas do tempo são invólucros especialmente desenvolvidos com a finalidade de se armazenar objetos ou informações, de tal forma que os mesmos possam ser resgatados em uma data posterior, por quem o produziu ou por outras pessoas. Elas são hermeticamente fechadas, o que impossibilita a inserção de novos objetos ao longo de sua existência e refletem o pensamento e a vivência de uma determinada época. Segundo esse autor, os objetos encerrados na cápsula do tempo têm o duplo propósito de fazer com que os participantes de sua construção reflitam sobre sua própria geração e pensem no legado deixado para as próximas gerações.

É bem verdade que sociedades antigas criaram e enterraram documentos e objetos e que foram posteriormente descobertos. Há registros de depósitos de objetos de 3.000 a.C., que foram resgatados em escavações arqueológicas, mas que não possuíam o estabelecimento de uma data específica para serem abertos.

Nesse sentido, embora a prática de se preservar relíquias seja bem antiga, a construção de um artefato específico para ser enterrado e aberto somente em uma data pré-estabelecida remonta ao final do século XIX. No século XX, cápsulas do tempo foram enterradas por ocasião da realização de feiras mundiais, consideradas “vitrines do progresso e da modernidade”, no lançamento da pedra fundamental de novos monumentos históricos ou em cerimônias cívicas de importantes efemérides. Esses rituais celebrativos constituíam importantes momentos de afirmação da identidade dos estados nacionais.

Uma cápsula do tempo, localizada na cidade do Rio de Janeiro- RJ, vai ser aberta esse ano por ocasião das comemorações do bicentenário de nossa Independência. Vejamos o contexto histórico e as motivações que levaram à sua construção.

Era o ano de 1972 e o Brasil vivia sob a égide de uma ditadura militar. Era a fase mais dura do regime de exceção, com a violação dos direitos humanos. Em setembro desse ano, o país completaria 150 anos como nação soberana e isso era a ocasião ideal para a comemoração desta efeméride, onde se mostraria a ideia de que o Brasil estava no caminho certo, rumo ao desenvolvimento. Em pleno período da guerra fria, o Brasil mostrava-se pujante e livre da suposta “ameaça comunista”.

Foi criada uma Comissão Executiva Central (CEC) responsável por coordenar as comemorações do sesquicentenário da Independência, sob a direção do general Antônio Jorge Corrêa. Assim, a programação oficial se revestiu de um caráter ufanista e patriótico, cujo ápice foi a trasladação dos restos mortais de nosso primeiro imperador, Pedro I, de Lisboa para o Monumento à Independência, em São Paulo, no local onde supostamente ocorreu o famoso “grito do Ipiranga”. Como parte do programa oficial, surgiu a ideia de se construir uma cápsula do tempo que deveria ser aberta por ocasião dos 200 anos da Independência, ou seja, em 2022.

A ideia inicial da construção de uma cápsula do tempo partiu de Fernando Cascudo, filho primogênito do antropólogo potiguar Luiz da Câmara Cascudo. No dia 7 de janeiro de 1973, em solenidade apresentada pelo jornalista Flávio Cavalcanti, no auditório da extinta TV Tupi, foi lacrada a cápsula do tempo que, segundo consta, continha os seguintes documentos e objetos: Carta do jornalista Adolpho Bloch, fundador da revista Manchete; Cópia do Plano Nacional de Desenvolvimento; Disco com o Hino do Sesquicentenário da Independência, composto por Miguel Gustavo; Fita do Programa Participação, apresentado por Fernando Cascudo, com o tema “A Herança de uma Geração – Brasil 2022”; Fita da Rádio Tupi e publicações da Bloch Editores. A urna onde foram guardados esses objetos foi confeccionada pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT), usando-se os seguintes materiais: latão, acrílico e um material antimagnético.

Essa cápsula do tempo comemorativa aos 150 anos de nossa Independência foi depositada nos jardins à frente do Palácio São Cristóvão que, desde o início da República, é a sede de nossa mais antiga instituição museológica, o Museu Nacional/UFRJ, fundado por D. João VI em 6 de junho de 1818. A escolha do local não poderia ser mais apropriada, uma vez que essa edificação fora, durante muito tempo, palco dos principais acontecimentos que levaram ao processo de emancipação do Brasil, a exemplo da Sessão do Conselho de Estado, presidida pela princesa-regente Leopoldina, no dia 02 de setembro de 1822.

Nessa ocasião, praticamente decidiu-se que não haveria outra alternativa a não ser a ruptura dos laços com a metrópole portuguesa, diante da tentativa das Cortes de Lisboa de “recolonizar” o Brasil. Ademais, o palácio também foi a sede da primeira Assembleia Constituinte Republicana (1890-1891), passando a abrigar o Museu Nacional/UFRJ no ano seguinte (1892).

No local onde foi depositada a cápsula do tempo, há uma placa de bronze, indicando que a mesma deve ser somente aberta nesse ano em solenidade pública, no contexto das comemorações do bicentenário de nossa Independência: “Todos que por aqui passem protejam essa laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na História de um povo que soube construir o seu próprio futuro (1972-2022)”.

Mesmo com a falta de uma programação oficial por parte do atual governo federal em relação a tão importante efeméride, a abertura dessa cápsula do tempo poderá se revestir de um momento simbólico de nossa História, ao tempo em que se deve assumir o compromisso de reerguer o Museu Nacional, vitimado pelo trágico incêndio de 2018. Será também uma grande oportunidade de se constatar quais foram realmente os objetos ali enterrados, verificar o seu estado de conservação e guardá-los para a posteridade.

Para manter essa tradição cultural, a atual direção do Museu Nacional pretende criar uma nova cápsula do tempo a ser aberta somente em 2072. Estamos pensando sobre a formação de uma comissão para discutir o que deverá ser depositado.

Então, o que você, leitor desse texto, sugere que seja colocado como representativo do atual momento, que possa dar à posteridade a dimensão dos 200 anos do Brasil? Envie sugestões para falecomdiretor@mn.ufrj.br!

*Ricardo Oriá, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Consultor legislativo da área de educação, cultura e desporto da Câmara dos Deputados. Autor de artigos sobre patrimônio cultural e museus e do livro O Brasil contado às crianças: Viriato Corrêa e a literatura escolar brasileira (E. Annablume, 2011)

*Alexander W.A. Kellner, doutor em Geociências pela Columbia University (Nova York), membro da Academia Brasileira de Ciências, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor do Museu Nacional

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoMuseu Nacional

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.