A campanha presidencial e o discurso político

Rodrigo Augusto Prando*

13 Junho 2018 | 10h00

Um evento de grande repercussão mundial e outro nacional estão empolgando bem pouco, até o momento, os brasileiros: a Copa do Mundo e as eleições presidenciais. Pesquisas demonstram que o ânimo do brasileiro não está afeito para o bom humor, seja no esporte ou na política. Tirante a Rússia distante e os traumas da derrota do último torneio mundial de futebol, a política, especificamente nossas eleições vindouras, já deveriam ofertar ao cidadão alguns elementos para ponderar como e o porquê serão escolhidos deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores e presidente da república. São múltiplos os fatores que determinam essa apatia da sociedade, contudo, aqui, neste breve espaço, pode-se apresentar algumas ideias atinentes à importância do discurso político, bem como algumas estratégias consideradas pelas candidaturas.

No importante livro Discurso Político, Patrick Charaudeau, afirma que na construção da estratégia discursiva de um político, há que se avaliar como sua fala, suas ideias, chegam à opinião pública. Basicamente, o discurso encontra três principais plateias: os que lhe são favoráveis, os que se encontram no campo da incerteza e os que lhe são desfavoráveis. Geralmente, os candidatos e seus marqueteiros procuram conquistar a fatia da opinião pública – obviamente, do eleitorado – que estão incertos em relação às teses esposadas na campanha eleitoral. Ocioso afirmar que não se gasta tempo e recursos com os favoráveis e, também, com aqueles que jamais serão os seus eleitores. O político, assim, conjuga uma ampla gama de pesquisas e de estratégias para conquistar a opinião pública e sensibilizar o eleitor. Apresenta suas credenciais, sua origem, sua formação, apela para o imaginário popular da tradição, da modernidade, da soberania popular; pode-se afirmar como de direita, de esquerda e de centro (e, nisso, múltiplas gradações). Para Charaudeau, “o discurso político – mas ele não é o único – realiza a encenação seguindo o cenário clássico dos contos populares e das narrativas de aventura: uma situação inicial que descreve o mal, a determinação de sua causa, a reparação desse mal pela intervenção do herói natural ou sobrenatural”.

Assim, esse discurso político buscará a aceitação e a adesão do eleitor a um projeto político e a um plano de ação. Vai, neste caso, apresentar um quadro de “desordem social”, da qual todos os cidadãos são vítimas; apresenta a “origem do mal” encarnada em seu adversário ou num inimigo; e, por fim, indica a “solução salvadora” em sua própria pessoa, em suas qualidades, em seu partido político. Pode, caro leitor, verificar, por exemplo, como essa lógica está presente nas principais demandas da população: emprego, segurança, saúde, educação, transporte público, etc. Em resumo: o quadro é horrível e a culpa por isso é do meu adversário ou do seu partido ou de seus aliados e “eu” serei o salvador, aquele capaz de cessar com essa desordem. Podemos, sem muito esforço, graças aos meios de comunicação, às redes sociais, encontrar os discursos dos candidatos, todos eles, praticamente, dispersos em entrevistas, programas de televisão, gravações para as redes sociais, artigos assinados, sites pessoais, blogs, etc. Conhecendo essa lógica discursiva, ou parte dela, pode o cidadão preocupado com os rumos da política, da república e da nossa democracia questionar a realidade dos fatos e, por isso mesmo, se o discurso do candidato desnuda ou obscurece essa realidade social. Mais ainda, pode o cidadão/eleitor, confrontar o discurso do político com a sua prática, com sua trajetória, com sua história de vida. Ali, naquela análise, pode-se compreender não só as fragilidades discursivas, mas, ainda, a desconexão daquilo que se fala daquilo que se pratica. Nestas plagas, a incoerência, o desprezo pela lógica, pela razão, as fake news e a construção de narrativas fantasiosas sustentaram as últimas campanhas eleitorais e suas consequência até hoje são visíveis.

Urge retomar os rumos de nosso destino político. Eleição é evento importante, festa cívica da democracia, mas esta não se esgota no voto. O cidadão, mais que um simples eleitor ou consumidor, é membro da comunidade política. Em nossa sociedade, as eleições são livres e o resultado de nossas escolhas é nossa responsabilidade coletiva. O discurso político, as propostas (ou, infelizmente, a falta delas), devem ser problematizadas e discutidas de forma aberta e assentada na civilidade. Na política, no confronto de ideias e de projetos, temos adversários, mas não inimigos. Inimigo se elimina. Com o adversário se convive democraticamente.

Na campanha presidencial que, nos próximos meses, com a propaganda eleitoral no rádio e televisão, deverá se avolumar e fermentar o debate, caberá, novamente, um exercício crítico. Aquilo que fala o candidato é real? Já resolveu algum dos problemas que apresenta como urgente? Qual sua participação na vida pública nos últimos anos? Já ocupou cargo público? Já foi eleito? Tem experiência de gestão? Tem ficha limpa? É investigado? Qual sua visão de mundo? Aproxima-se da democracia ou de posturas autoritárias? Como trata seus adversários no debate político? Como se posiciona nos temas contemporâneos? Economia de mercado? Estatizante? Como lida com as minorias? Quais seus compromissos com os direitos humanos? Quais são os resultados de seus mandatos? Reforma da previdência? Reforma política? Reforma fiscal? Relações internacionais? Educação? Saúde? Liberdade econômica?

As perguntas pululam e, certamente, parte substancial das respostas de todos os candidatos pode ser apreendida em seus discursos políticos. A responsabilidade é grande e o país precisa retomar seu crescimento, com drástica diminuição da violência e melhoria da qualidade de vida. Afirmo, sempre, em minhas aulas, que políticos não crescem num pomar atrás do Palácio do Planalto. Quando chegam lá é porque foram eleitos, legitimados pelo voto, pela sociedade. É simples, mas é a mais pura verdade.

*Rodrigo Augusto Prando é cientista político e professor do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É bacharel e licenciado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp/FCLAr

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