A caixa de R$ 1 milhão entregue ao amigo de Temer, segundo delator

A caixa de R$ 1 milhão entregue ao amigo de Temer, segundo delator

Florisvaldo Oliveira, que era entregador de propinas da JBS, contou para a Procuradoria como transferiu dinheiro do porta malas de seu carro para o do 'coronel', que seria João Baptista Lima Filho, na garagem de sua empresa, em São Paulo

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Luiz Vassalo e Fausto Macedo

25 de maio de 2017 | 15h18

Espécie de courrier dos donos do Grupo J&F, para entrega de dinheiro vivo de propinas a políticos e outros corrompidos, o contador Florisvaldo Caetano de Oliveira detalhou aos investigadores da Operação Lava Jato, em seu depoimento gravado em vídeo, a operação de repasse de R$ 1 milhão ao coronel aposentado João Baptista Lima Filho, amigo do presidente Michel Temer, em 2014, em uma caixa.

“O Ricardo Saud me pediu uma vez que eu entregasse R$ 1 milhão, uma propina de R$ 1 milhão e passou o endereço e um telefone”, contou Oliveira, um dos sete delatores da J&F – controladora da JBS.

O delator afirma que o recebedor era o “coronel”, que “não conferiu, nem nada”. “Coronel”, segundo a delação da JBS fechada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), é João Baptista Lima Filho. Ele já foi assessor de Temer e frequenta a residência do presidente. A sede da Argeplan Arquitetura e Engenharia, empresa da qual Lima é sócio, em São Paulo, foi um dos alvos de busca na operação Patmos, deflagrada na quinta-feira, 18, e endereço da entrega da propina da JBS.

“Estava em uma caixa.” Os procuradores da República insistiram em saber detalhes sobre o recipiente que acomodou a propina atribuída a Temer. “Eu que acomodei. Uma caixa grande (com as mãos, em cima da mesa, desenha no ar a proporção da caixa), uma caixa…”

“R$ 1 milhão em notas de que?”, pergunta o procurador, aos 41 minutos do vídeo. “Não lembro doutor, mas a maioria é nota de 100, né.”

O delator, ao buscar o acordo com a PGR, havia entregue um anexo em que resume o que poderia revelar no seu depoimento.

Bolso. O valor de R$ 1 milhão, segundo contam os donos da J&F Joesley e Wesley Batista e o executivo Saud, era parte da propina de R$ 15 milhões acertada com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, a ser descontada da “conta Dilma”. O valor global era para compra de apoio do PMDB e o montante teria Temer como beneficiário.

Os delatores entregaram anotações e planilha que relacionam os valores ao nome do presidente e afirmaram que R$ 1 milhão teria ficado com Temer, via duas pessoas de sua confiança: o coronel Lima Filho e José Yunes, ex-assessor da Presidência, que tem o nome anotado associado ao valor.

Por ordem do presidente, segundo a versão dos delatores, os R$ 15 milhões foram repassados entre agosto e outubro de 2014. O dinheiro foi repassado em forma de doações oficiais (R$ 9 milhões), pagamento do marqueteiro Duda Mendonça por contrato fictício, referente a campanha do PMDB ao governo de São Paulo de Paulo Skaf (R$ 2 milhões), entrega de dinheiro vivo para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (R$ 3 milhões) e a entrega de dinheiro no endereço da Argeplan (R$ 1 milhão).

 

“Tava demorando para o pessoal me trazer o dinheiro e o Ricardo me cobrou ‘ó, vai lá… se sabe, tem que atender, é do Temer. Na época o Ricardo me falou, que era o Temer, na época, se eu não me engano, o Temer era vice-presidente”.

O procurador Sérgio Bruno questionou: “o senhor está falando Michel Temer?”.

“Michel Temer. Eu imagino que seja Michel Temer”, respondeu. Segundo ele, Saud, que era o lobista da J&F, em Brasília, para o Congresso, teria dito a ele que estavam “cobrando”.

Risco. O delator detalhou no seu depoimento gravado como foi o dia do repasse de R$ 1 milhão, na sede da Argeplan, no bairro Vila Madalena, em São Paulo, em plena disputa eleitoral de reeleição da chapa Dilma Rousseff presidente e Temer vice.

Oliveira, que é contador e prestador de serviços da JBS, diz que o local da entrega era “um sobrado com uns vidros escuros na frente”. Foram duas visitas ao local, segundo ele.

“Quando eu já estava pronto para fazer a entrega, aí eu liguei, marquei para falar com o “coronel”. “Não sei se é apelido, o que é.”

Segundo o delator, assim que entrou no prédio, foi chamado pelo “coronel”.

“Esse senhor veio, um senhor de idade. Me chamou, subi com ele na escadinha. Ele (disse) ‘você veio trazer um dinheiro para mim?'”, relata Oliveira.

 

 

 

 

“‘Olha eu vim aqui para entender como é que é, porque eu nunca….'”, teria respondido o delator. Aos procuradores, ele afirmou ter ficado com medo. “Essas entregas de propina, de sair com dinheiro no carro, eu realmente fiquei assutado com  isso.”

O recebedor do dinheiro, segundo delator, teria mostrado descontentamento. “Ele até achou ruim, porque ‘poxa, já prometeu e não sei o quê, não veio’. Eu disse ‘eu vim aqui para entender como é que é, como que faz, afinal não é um real é um milhão. Quero entender, saber como… afinal eu que estou correndo risco’.”

Nessa primeira visita ao local, o delator diz ter isso sozinho e que voltaria no dia seguinte, mas teria ouvido do “Coronel” um pedido para que voltasse “dois ou três dias depois, porque tinha compromisso”.

Caixa. Foi na segunda visita ao local, que o delator diz entregue a propina de R$ 1 milhão em uma caixa. Nessa ocasião, ele diz ter ido com um funcionário da JBS “com a propina já dentro do carro”.

“Eu falei para o Demilton, ‘já encosta o carro de ré’, porque estava no porta malas, para não ficar andando com …, porque eu achei que a gente ia subir com ele, como na primeira vez. Quando eu toquei na campainha, logo na sequência ele já desceu, esse coronel.”

Oliveira afirmou que tinha avisado por telefone que estava a caminho do endereço. “Eu achava que ia subir com o dinheiro, ele falou ‘não não, bota nesse carro que está do lado, no porta malas

O delator relata ter demostrado preocupação com a segurança. “Aí eu falei ‘mas e esse vidro…’, porque o escritório está na parte de baixo, e ele fica na parte de cima. E na parte de baixo tem um vidro escuro, eu falei ‘mas o que tem aí pelo lado de dentro'”.

O “coronel” teria respondido: “Não, não, tranquilo, tranquilo”.

“E eu falei ‘e essa câmera aqui (apontando o dedo para o teto)?”, conta Oliveira. “Não, não, tranquilo”, teria respondido o recebedor. A câmera seria do próprio prédio.

“Então tudo bem, coloquei no carro dele e fui embora.”

O delator afirma que o recebedor “não conferiu, nem nada” o dinheiro. “Estava em uma caixa.” Os investigadores insistiram em detalhes do recipiente. “Eu que acomodei. Uma caixa grande (com as mãos, em cima da mesa, desenha no ar a proporção da caixa), uma caixa…”

“R$ 1 milhão em notas de que?”, pergunta o procurador, aos 41 minutos do vídeo. “Não lembro doutor, mas a maioria é nota de 100, né.”

Provas. Nas buscas que fez na Argeplan, na semana passada, os policiais federais buscavam provas, como eventuais arquivos de vídeo da câmera de segurança da empresa, que podem guardar imagens da entrega de R$ 1 milhão.

Oliveira disse não lembrar o número do telefone que ele ligou para acertar as visitas ao “coronel”. O endereço foi entregue pelos delatores para os investigadores nos anexos feitos pela defesa dos delatores. No local funciona a sede da Argeplan.

Em um desses documentos com os endereços da Argeplan, Saud faz uma anotação a caneta na qual diz: “Endereço onde Florisvaldo entregou dinheiro do MT”.

Florisvaldo Oliveira, que também fez delação com os donos da JBS, era um operacional das entregas de propinas.

“Fiz diversas entregas”, explicou Oliveira, que disse não saber quem eram os beneficiários dos  valores nem os termos dos acertos. “Eu simplesmente entregava o dinheiro para eles, entregava a a propina. O Demilton (da JBS) passava para mim o valor, passava ‘você ó, entrega tanto lá, vai buscar’. E eu simplesmente entregava não negocia, eu não sabia… não era da função minha, eu não tinha controle nenhum disso.”

O dinheiro, segundo o delator, chegava para ele em mochilas enviadas por outros emissários. Eram pessoas da rede de doleiros usada pela JBS.

Em seu depoimento, ele contou também como entregou valores para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no Rio, para um emissário de nome Altair. O ex-deputado está preso desde outubro de 2016, em Curitiba, pela Lava Jato.

Joesley relatou aos procuradores da PGR como conheceu Temer, detalhou os acertos com medalhões do PMDB e explicou como gravou o presidente no Jaburu, em março, quando disse ter buscado uma orientação sobre como proceder em relação aos pagamentos para o ex-presidente da Câmara e seu operador de propinas, que estavam presos e ameaçando fazer delação.

No anexo do depoimento entregue pela defesa de Saud, citado por Oliveira, ele detalha a partilha dois valores e as entregas dos R$ 15 milhões.

O material entregue pelos delatores tem ajudado os investigadores a buscar elementos sobre os repasses de propinas da JBS a mando de Temer. O ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo, autorização abertura de inquérito contra o presidente.

As gravações e a delação de Joesley e outros seis executivos da J&F desencadearam na quarta-feira, 17, a Operação Patmos, desdobramento da Lava Jato, que encurralou Temer e presidente e senador afastado do PSDB, Aécio Neves.

COM A PALAVRA, MICHEL TEMER

O presidente Michel Temer afirmou em entrevista à colunista do Estadão Vera Magalhães, no dia 20, que não vai renunciar à Presidência, se disse vítima de “armação”, negou que tenha participado de um plano para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha e disse estranhar que a delação da JBS, que o atingiu, tenha sido selada “no momento em que a economia começa a se recuperar”.

Temer disse estar convencido da capacidade de rearticulação política do governo, deu sua versão para o encontro que teve com Joesley Batista, da JBS, em março.

“Esse sujeito me ligou seguidamente, ao longo de vários dias, me pedindo para ser recebido”, afirmou o presidente. Segundo ele, a segurança da Presidência vive repreendendo-o por “atender o celular”. “Eu tenho o hábito, que a segurança do Planalto vive reclamando, de atender o celular, responder mensagem. É um mau hábito pela liturgia do cargo, mas que eu adquiri da experiência parlamentar”, disse Temer.

Segundo ele, depois de muita insistência por parte de Joesley, ele concordou em recebê-lo no Palácio do Jaburu. Questionado sobre o horário tardio da conversa, Temer disse que a razão foi o fato de que, anteriormente, ele compareceu à festa de aniversário da carreira do jornalista Ricardo Noblat. “Disse a ele: estou na festa do Noblat. Se quiser, passa mais tarde no Jaburu. E ele concordou.”

Temer afirmou que já conhecia Joesley, e que tem o costume de receber empresários para conversas. “Já recebi dezenas de empresários. Em São Paulo, no Jaburu, no Planalto. Muitas dessas reuniões acontecem fora da agenda”, disse o peemedebista.

Questionado sobre os assuntos tratados na reunião, alguns deles a confissão de crimes como o suborno a um procurador e supostamente a dois juízes, Temer disse ter atribuído o teor da conversa ao fato de Joesley ser alguém acuado por investigações e contrariado por não obter acesso que tinha antes a altas autoridades do governo. “Logo de cara, vi que ele era um falastrão”, afirmou.

Ele afirmou ter achado “estranho” o teor da conversa, mas que não levou a sério as afirmações. “Mas você veja que comecei a ser cada vez mais monossilábico, quando a conversa dele começou a enveredar para o pedido de que precisaria ter acesso a esse ou aquele setor do governo.”

Temer afirmou que a divulgação do áudio da conversa demonstra que ele não deu aval à compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, conforme se divulgou inicialmente. “Veja que ele diz que está mantendo uma boa relação com ele, e incentivo que deveria manter, apenas isso.”

Sobre o eventual interesse em evitar uma delação de Cunha, Temer evoca o fato de o ex-aliado tê-lo arrolado como testemunha: “Que silêncio do Cunha eu poderia comprar? Se ele me mandou 21 perguntas num processo e 17 em outro, todas claramente tentativas de me incriminar, e o próprio juiz Sergio Moro tratou de indeferir?”.

A respeito da sugestão para que Joesley procurasse o ex-assessor especial da Presidência e deputado afastado Rodrigo Rocha Loures, Temer disse que apenas confirmou uma sugestão do empresário. “Falei que poderia falar com o Rodrigo sobre assuntos do grupo, como poderia falar o Moreira, ou o Padilha”, justificou.

Temer disse acreditar que Rocha Loures “deve ter sido seduzido” pela promessa de receber R$ 500 mil ao longo de 20 anos. Questionado pelo Estadão se tomou conhecimento, em algum momento, da negociação de recursos por Rocha Loures, ou se autorizou a transação, o presidente negou.

Afirmou que o suborno ao deputado foi negociado pela obtenção de um acordo no Cade que foi negado. “O Cade resolveu? Não resolveu! Ele estava desesperado porque a Maria Silvia saneou o BNDES, ele teve de mudar a operação da empresa para outro país porque fechamos a torneira do BNDES”, afirmou o presidente.

Temer atacou os governos do PT e criticou os termos da delação oferecida ao grupo JBS. “Fui vítima de bandidos que saquearam o País nos governos passados e não obtiveram acesso ao nosso. E negociaram um acordo pelo qual querem sair impunes!”, afirmou o presidente, para em seguida dizer que tentará todos os recursos jurídicos para tentar anular o inquérito aberto contra ele no STF, que, segundo sua avaliação, se baseou em provas armadas.

Ele afirmou que não renunciará e que tentará recompor a base de sustentação do governo para aprovar as reformas. “Querem me tirar para continuar com as mesmas reformas que eu propus, com o meu programa. A quem interessa desestabilizar o governo?”, questionou o presidente.

Temer disse “estranhar” que a crise tenha sido “criada” justamente quando a economia começava a dar sinais de reação. E repetiu os dados que dissera no pronunciamento, de que a JBS lucrou com o câmbio e a venda de ações nos dias que antecederam a Operação Patmos.

 

COM A PALAVRA, SKAF

A campanha de Paulo Skaf ao governo do Estado de São Paulo, em 2014, não recebeu nenhum tostão do grupo JBS. Também não houve autorização para que ninguém solicitasse valores ao grupo. Todos os gastos e doações da campanha foram declarados à Justiça Eleitoral e constam da prestação de contas apresentada ao Tribunal Regional Eleitoral em 2014, sem nenhum reparo.

COM A PALAVRA, DUDA

O marqueteiro Duda Mendonça não foi localizado pela reportagem. Ele já admitiu ao Ministério Público Federal que recebeu recursos de caixa 2 da empreteira Odebrecht para a campanha de Skaf, em 2014. O presidente da Fiesp negou ter havido recursos ilícitos na sua campanha a governador.

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