A cada vez que te encontro

A cada vez que te encontro

Fernanda Zacharewicz*

14 de junho de 2020 | 03h00

Fernanda Zacharewicz. FOTO: DIVULGAÇÃO

Daqui a pouco sairemos do isolamento. Voltaremos a encontrar o outro, aqueles que amamos explícita ou implicitamente, aqueles com quem compartilhamos espaços e nada mais, ou ainda aqueles que gostaríamos de nunca mais encontrar na vida – sim, todos temos uma listinha dessas, muitas vezes bem escondida de nós mesmos. Eu já estou na 13ª semana da quarentena e anseio muito ir ao cinema, à livraria, à academia, aos grupos de estudo, aos cafés, ao bar com os amigos. Anseio que minhas filhas voltem para a escola. Eu amo minhas filhas, mas estar com elas 24 horas por dia, durante 13 semanas…

Uma manhã dessas de outono, céu azul, sem nuvens, enquanto eu estendia os lençóis no varal peguei no ar um pensamento que logo ia se desfazer na cena bucólica que prenunciava o lindo dia: “Eu poderia viver assim para sempre”. Ao invés de sair cantarolando e afagando o cachorro com a cesta de vime apoiada no quadril, a sentença se completou: “Eu poderia viver assim para sempre, se esquecesse do meu desejo.”

Lembro do período de puerpério, eu estava feliz da vida, mas ir ao mercado já era um passeio para mim. As visitas que chegavam eram um bálsamo que diferenciava os dias de cuidado com o bebê. Hoje o mercado é uma ameaça, não chegam visitas. Quando o final da licença maternidade se aproximava, aumentava o meu desejo de voltar ao trabalho, naquela época eu dava aulas de psicanálise em uma universidade. Queria falar de outras coisas que não de bebês, queria discutir a formação do analista, ansiava por coisas que estavam muito além das paredes da minha casa e de meu pequeno núcleo familiar. Hoje anseio falar de encontros, não de morte.

Um dia eu tive que voltar ao trabalho. Como sair e garantir que minha filha e eu estaríamos seguras? Não tinha como. Eu fui, ela também. Ela foi à escola, deve ter levado algumas mordidas de colegas. Quebrou o dente, aprendeu a comer trevos do chão com uma amiga, pegou piolho múltiplas vezes, ganhou cicatriz de catapora bem no rosto… Estar com outras pessoas é contagiante, sempre foi. Não é privilégio advindo da pandemia. Ela quer voltar para a rua, sair da segurança de seu quarto e correr o risco das interações.

Sempre nos contagiamos e sofremos mutações contínuas no convívio com nosso (des)semelhante. Somos um corpo que chega e ocupa um espaço. O espaço que ocupamos na interação com o outro poucas vezes é o que imaginamos. Sou muitíssimo desorganizada, no primeiro ano do ensino médio eu usava um fichário de folhas amarelas que viviam espalhadas por toda a sala. Minhas colegas as recolhiam e, com razão, reclamavam. Passei a usar um caderno, um só caderno para todas as matérias. Assim eu ainda ficava feliz em manter a minha desorganização e, ao mesmo tempo, a limitava. Elas já não recolhiam as folhas, mas ainda me reservavam duas mesas… Assim convivemos, durante quatro anos, em uma pequena sala de 14 adolescentes. Nas reuniões que temos hoje em dia, 25 anos depois, essas situações são lembradas e rimos. Aprendi com elas a rir de mim mesma. E juntas tornamos a convivência não somente possível, mas prazerosa.

Sou animal gregário, gosto de tudo junto e misturado. Daqui a pouco, vamos (re)encontrar o incômodo do olhar quem nos mede da cabeça aos pés. Mas também, quando menos esperarmos, vamos ser contaminados pelo vírus através daquele olhar que nos despe e nos convida a outros encontros, nos quais toda nossa vida é posta em risco. Ah! As dores e os prazeres do contágio! Vamos encontrar as lágrimas dos machucados que teremos ao longo do caminhar, mas também os bálsamos nos ombros nos quais costumamos chorar na mesa do bar ou com a xícara de chá no sofá.

Quero chorar com meus amigos a morte de uma querida companheira que perdi nesses dias difíceis. Quero voltar a descer do avião e saber que ninguém me espera no portão, mas que naqueles dias vou me misturar a novos cheiros, novos sotaques e a novos sujeitos. Quero chegar para chorar a cada despedida, para que novas pessoas queridas façam parte da minha existência. Quero encontrar aqueles que, com ética, se posicionam de forma diferente da minha, para marcar a urgência do fortalecimento de meus argumentos e da minha habilidade de debate. Quero virar-me e surpreender seu olhar, ainda estrangeiro, a me observar. Se ainda não conhecemos os tratamentos para cada um desses males, sabemos que vamos inventar uma nova maneira, a cada vez, de lidar com eles.

Quero descer do metrô do lado errado, me perder para me encontrar. Saber que embarquei na viagem errada para ter a oportunidade de mudar a rota. Em cada viagem, a cada encontro, sempre que desço do lado errado do metrô, ou pego o trem errado, rio de mim mesma. Sei que é só voltar, são uns poucos passos, não o caminho todo. Sou capaz disso.

Mas para isso vou ter que voltar a cruzar o portão de casa. Moro em uma rua sem saída, mais especificamente em um beco sem saída. O que pode soar muito seguro em tempos de pandemia ou em uma cidade grande. Nunca fechamos os portões no dia a dia. Agora eles permanecem fechados. Aprendi a achar saídas, há que abrir o beco. Ou, como analista, devo dizer: há que abrir o bico. Meu desejo é além dos portões que me isolam. Eu desejo é o contágio. Não fiquei imune aos que já me contaminaram ao longo do percurso. Mas quero em minha pele novos vírus, novas vivências com as quais me forme. Novos amores que me derrubem, novas parcerias que colaborem na construção do porvir. Muito além dos lençóis brancos sob o céu azul, o risco e o desejo de ultrapassar meus próprios portões.

*Fernanda Zacharewicz é psicanalista e editora da Aller Editora

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