A cada um o que é seu

A cada um o que é seu

José Renato Nalini*

30 de janeiro de 2021 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Esse o nome do livro de Rosana Mendes Ribeiro, fonoaudióloga educacional, que desenvolveu o método CDRA. É uma metodologia referência em defasagens educacionais e adaptações curriculares.

Há muitas iniciativas saudáveis desenvolvidas por idealistas que conferem à educação a devida seriedade. A professora Rosana Ribeiro é uma dessas pessoas. Tive o privilégio de conhecê-la quando, na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, enfrentava um insólito crescimento de número de alunos diagnosticados como autistas.

Nossa estrutura alarmou-se com esse fenômeno. Só muito mais tarde se verificou que talvez não houvesse uma onda de tamanha intensidade. Ocorre que as crianças são muito diferentes entre si. Aliás, como todo ser humano. A homogeneização é característica de formigueiros, ou colmeias. As comunidades humanas são formadas por seres singulares, irrepetíveis, heterogêneos entre si.

No afã de selecionar alunos que respondessem às expectativas, notadamente em relação à consecução do bônus de mérito, em algumas escolas aquela criança que não correspondesse a um padrão pré-estabelecido era sumariamente diagnosticada como autista. Assim, seria encaminhada a uma instituição especializada e não comprometeria a performance da equipe.

Foi graças ao método desenvolvido por Rosana Mendes Ribeiro que se chegou à constatação científica de que os ritmos de aprendizado são distintos e que cada criança merece uma análise muito específica.

Impressionante o conforto que o MDRA trouxe aos educadores preocupados com essa crise. As escolas que experimentaram essa estratégia apresentaram rendimento muito superior ao daquelas que não tiveram a oportunidade de implementar o projeto.

O resultado é a verdadeira inclusão de toda criança ao universo escolar que é a sua oportunidade de desabrochar para a vida, mediante os processos de concretizar as potencialidades, rumo à plenitude possível.

O êxito evidenciado pelo MDRA permitiu que escolas estaduais ganhassem o cobiçado Prêmio “Mário Covas” de gestão, pois além de impedir que os alunos fossem estigmatizados com rótulos, representou considerável economia para o Erário. A educação especial é dispendiosa, enquanto que a paciência, o carinho e a determinação de mestras que compreendem os graus de dificuldade de seus educandos é componente obrigatório à excelente docência do profissional vocacionado.

Rosana Mendes Ribeiro e sua equipe sabem lidar com isso, ou seja, com as especificidades de cada ser humano confiado à educação convencional mantida pelo Estado. É uma postura inversa à tendência reducionista de centralização, de padronização, de uniformização, não raro constatável em algumas estruturas menos abertas a inovações.

A propósito, o livro “Menino de Ouro”, editora Todavia, de Claire Adam, é uma leitura interessante para quem se propõe a encarar a complexidade de instruir e formar seres distintos. Narra a história de gêmeos que enfrentam situações bem díspares. O primeiro nasceu sem problemas, o segundo sofreu privação de oxigênio, teve o cordão umbilical a enforcá-lo, houve uso de fórceps. O resultado é que um parece ter nascido para o sucesso, o segundo para o fracasso. Foi um sacerdote professor que fez a diferença, para mostrar que as coisas não teriam de ser assim.

Outro livro a merecer leitura por parte de educadores – e aqui se incluem também os pais, os primeiros formadores de um novo ser social – é “Todas as pessoas contam”, da norueguesa Kristin Roskifte, publicado pela Companhia das Letrinhas.

A mensagem nele contida é a de que cada um de nós é único e valioso. Todos integramos um pequeno grupo, componente de um grupo maior e, a final, fazendo parte do mundo.

Ensinar a criança a se reconhecer como partícula da humanidade, em nada essencialmente distinta de tantas outras partículas, todas elas merecedoras de respeito, de consideração, de comiseração, de compaixão e amor, é o que dignifica a profissão de educador.

O mergulho consciente na missão de tornar o planeta um espaço de convívio harmônico e fraterno é o que transformará a sociedade terrestre. São passos como o da educadora Rosana Mendes Ribeiro, com seu método inovador e pioneiro, que elevam o grau de qualidade nas relações sociais.

Quando tudo parece esgarçado, fulminado pelo desalento e pela desesperança, a humanidade se vê desperta para ações benevolentes, geradas em corações generosos, que aliviam a pesada carga de aflição que recai sobre os viventes.

Nessas iniciativas é que devemos nos apegar, pois elas representam vitaminas de esperança e mostram que a humanidade ainda tem futuro promissor. São faróis que iluminam nossa trajetória e nos fazem persistir na caminhada.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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