A busca insana por um salvador da Pátria

A busca insana por um salvador da Pátria

Edson Miranda*

19 de abril de 2020 | 04h30

Edson Miranda. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nestes tempos de isolamento, somos convidados à reflexão sobre os mais variados temas. Um aspecto positivo, entre outros, da quarentena imprescindível e necessária que ora vivemos.

Nelson Rodrigues dizia que tínhamos complexo de vira-latas, que consistia no sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao resto do mundo. Contudo, parece-nos que vivemos o complexo da busca pelo salvador da pátria. Ineficaz, diga-se de passagem.

No Brasil, infelizmente, não se elege o presidente da República, para dirigir a nação por quatro anos, cumprindo um amplo e eficaz plano de governo. Nós elegemos quem imaginamos que vai, enfim, pôr o país nos eixos e resolver todos os problemas e as mazelas do Brasil.

Infelizmente, não existiu e nunca existirá essa figura tão sonhada e desejada.

É evidente que algumas nações tiveram seus grandes estadistas: Winston Churchill no Reino Unido e Franklin Delano Roosevelt nos Estados Unidos. Mas estas duas nações não chegaram em seus patamares elevados de desenvolvimento por causa de único líder.

Por outro lado, alguns líderes, com poderes quase absolutos, aniquilaram seus países. Adolf Hitler na Alemanha, por exemplo, que arrastou o mundo à maior guerra do planeta ou Mao Tsé-Tung, que levou milhões de chineses à morte por causa da fome, decorrente de um plano de metas irreal e insustentável.

E a história mundial nos brinda com muitos outros exemplos de nações, que se desenvolveram sob regimes democráticos e mediante uma longa cadência de líderes nacionais, até com convicções conflitantes, mas com o mesmo objetivo: desenvolver o seu país nas esferas econômica, social e cultural.

O Brasil avança e retroage no seu desenvolvimento, pois, via de regra, nós brasileiros elegemos nosso salvador da pátria que dessa vez, resolverá tudo. Lamentavelmente, não existe quem cumpra esse papel no teatro da vida brasileira. Não tivemos e não teremos um político, que, rapidamente, num piscar de olhos, num mandato de quatro anos, resolva todos os problemas do Brasil.

Temos que pensar no futuro, não com sonhos, mas com planos de governo de longo prazo, a serem cumpridos pelos nossos governantes, independentemente de suas convicções e crenças, cada um fazendo a sua parte num circuito virtuoso. O velho ditado italiano é uma lição para nós: piano, piano se va lontano (devagar, devagar se vai longe).

*Edson Miranda, advogado, professor universitário e escritor

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