A bicicleta invertida

A bicicleta invertida

Cassio Grinberg*

13 de julho de 2021 | 09h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Alguns anos atrás, o engenheiro Destin Sandler foi chamado por colegas de trabalho soldadores, que queriam lhe “pregar uma peça”. Eles apresentaram a ele uma bicicleta invertida: ao contrário das bicicletas comuns, nesta, quando você girava o guidão para um lado, a roda movia-se para o outro.

Com a confiança de algumas décadas sabendo dominar uma bicicleta, Destin calculou que rapidamente daria conta do recado. No entanto, quando subiu pela primeira vez na bicicleta invertida, mal conseguiu se manter em cima dela. Frustrado, teve uma revelação: seu pensamento estava em uma rotina, e a bicicleta gerou um insight: ele tinha o conhecimento de como operar uma bicicleta, mas não tinha o entendimento. E concluiu: conhecimento é diferente de entendimento.

Muitas vezes, em nossas empresas e mesmo em nossas casas, acreditamos que entendemos tudo. Acreditamos inclusive que entendemos certas coisas que mal começamos a conhecer. O que nos gera o que costumo chamar de “crenças de concreto”: tão sólidas que, quando se torna inevitável desmontá-las, só conseguimos com muita sujeira e barulho.

No livro “Tudo o que você pensa, pense o contrário”, Paul Arden sugere que devemos desapegar constantemente de certos hábitos “sensatos”, subverter hierarquias, e abraçar o risco como um fator paradoxal de segurança. No caso da bicicleta invertida, você olha para ela e tem certeza de que é muito fácil. Mas Destin levou a bicicleta a muitas conferências e palestras e chegou a oferecer duzentos dólares para quem conseguisse pedalar três metros — o que, claro, ninguém conseguiu.

E como ele mesmo conseguiu? Desaprender é um processo constante e nada fácil, pois requer esforço todos os dias. Durante oito meses, Destin treinou cinco minutos por dia e, ao final, dominou a arte de pedalar na bicicleta invertida e hoje circula com ela pelas ruas de Amsterdã.

Quando transformamos disciplina em rotina, e rotina em habito, somos capazes de desaprender a forma como funcionam nossas hierarquias mentais. Rompemos a superfície do mero conhecimento para nos aprofundarmos no entendimento verdadeiro, não permitindo que o novo pegue distância. Desaprendemos tanto que, assim como Destin, já não conseguimos mais pedalar da forma antiga.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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