À beira de um colapso, preservação da água deve ser prioridade

À beira de um colapso, preservação da água deve ser prioridade

Cláudio Abduche*

10 de novembro de 2021 | 07h45

Cláudio Abduche. FOTO: DIVULGAÇÃO

A escassez de água pode afetar 5 bilhões de pessoas até 2050 – é o que apontou a Organização Mundial de Meteorologia em um relatório lançado às vésperas da COP-26. Enquanto isso, um copo de água limpa e filtrada já é considerado um privilégio em inúmeros países e motivo de conflito em muitos deles, segundo o Pacific Institute, que passou os últimos 30 anos estudando a relação entre escassez de água, guerras e migração.

O provérbio “morrer de sede” ainda não é uma realidade global, mas a dificuldade de acesso e a constante contaminação dos recursos disponíveis tornam a água cada vez mais preciosa para uma parcela da população que, em vez de diminuir, está aumentando.

A verdade é o que todos já sabem, os recursos naturais são finitos e, à beira de um colapso, a sociedade precisa colocar em prática soluções e inovações para garantir que mais pessoas tenham acesso à água, ao mesmo tempo em que explora menos e preserva mais os mananciais. Um desafio possível, mas que depende da ampliação da infraestrutura e de investimentos em saneamento básico em todo o país.

Hoje, 35 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a água potável, um cenário que está mudando, impulsionado principalmente pela expansão de investimentos realizados ou comprometidos pela iniciativa privada, mas que ainda tem muito a evoluir. Para além da universalização do acesso à água potável, que deve ser alcançada até 2033, de acordo com o Novo Marco do Saneamento, os investimentos são cruciais para a redução da perda de água tratada, um dos grandes desafios das companhias que assumem infraestruturas antigas, com pouco ou nenhum investimento em manutenção em mais de 50 anos de atividade.

O resultado deste descaso é o índice médio de 39% de perda de água em todo o Brasil. Isso significa que a cada 100 litros de água retirados da natureza e tratados, quase 40 litros são perdidos ao longo da distribuição. Este índice é preocupante, sobretudo em meio às discussões sobre crise hídrica e o desabastecimento. O desperdício no Brasil é maior do que o registrado em países como Bangladesh, onde a média de perdas é de 21,6%, e Etiópia, com 29,1%. A verdade é que não precisamos captar mais água se conseguirmos reverter as perdas.

Com altos investimentos, tanto na operação quanto no desenvolvimento de soluções que incluem inteligência artificial e parceria com startups, empresas privadas têm conseguido reduzir esse índice, contribuindo para a preservação dos mananciais e atentas à importância do uso consciente dos recursos disponíveis. Mas a sociedade também precisa estar vigilante e cobrar ações efetivas, tanto do poder público quanto das concessionárias que assumem a gestão dos serviços, que são as maiores interessadas em atenuar os impactos ambientais de suas operações.

Um bom exemplo do uso eficiente de água é o de Niterói, no Rio de Janeiro. Sem manancial próprio, a concessionária local compra 1.800 litros de água por segundo para abastecer a população – mesma quantidade que era utilizada 20 anos atrás, quando 100 mil pessoas ainda não eram atendidas pela rede de distribuição. É um caso prático de como é possível ampliar o acesso sem recorrer ao aumento da exploração dos recursos naturais.

O mais curioso é que, ao contrário do que muitas pessoas podem pensar, o investimento para manutenção da infraestrutura sai muito mais barato do que o desperdício – é de conhecimento público a necessidade de investimentos não planejados, e elevadíssimos, que algumas concessionárias têm sido obrigadas a realizar para enfrentar as recorrentes crises hídricas em nosso país, por exemplo.

Mas é aí que a sigla ESG faz sentido, de verdade, com resultados que priorizam o bem-estar social e a redução de impactos ambientais, a partir de uma governança e de estratégias de trabalho bem estruturadas. É claro que este é só o início de um cuidado que tem que ser constante e que deve receber mais atenção das companhias, mas é um dos caminhos que podem nos ajudar a preservar os nossos recursos naturais e garantir o acesso à água para todos os brasileiros.

*Cláudio Abduche, presidente do Grupo Águas do Brasil

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