A barbárie é aqui e agora

A barbárie é aqui e agora

Fernanda Zacharewicz*

29 de julho de 2021 | 08h00

Fernanda Zacharewicz. FOTO: FÁBIO MUNIZ

Entre os exercícios na academia, ouvi uma mulher contando que seu filho havia dito que, se apanhasse de novo, iria à delegacia. Seu relato é entusiasmado. Somente com fones altíssimos escaparíamos de ouvi-lo. Frente à resposta do filho, ela gabou-se: “Pode ir, eu vou lá, te bato na frente do delegado e ainda digo que é assim que se educa. Sou sua mãe. Se todas fizessem isso, não haveria tanto problema hoje”. Na plateia em silêncio – sim, éramos a audiência da mulher que continuava a bradar –, entre alguns rostos poderíamos ler horror e entre outros, pasmem, aprovação.

Em 2020, os assassinatos de pessoas trans aumentaram 41%. Em plena pandemia, quando a circulação diminuiu, essa população, já em situação de vulnerabilidade, viu-se sob maior risco de morte.

Em março, a mídia anunciou a morte do menino de 4 anos que chegou ao hospital com equimoses, sinais de violência e hemorragia interna. Os suspeitos são o padrasto e a mãe. Especialistas afirmam que os índices de violência contra a criança e o adolescente aumentaram durante o período de quarentena; a crise econômica e a reclusão da família em suas casas contribuíram para isso. A escola, um dos principais instrumentos de denúncia dos casos, permaneceu fechada por vários meses.

Em junho, as manchetes foram ocupadas pela caça a Lázaro Barbosa e, posteriormente, pela comemoração do final da expedição. Algumas mídias ofereceram à massa sedenta a foto de seu corpo cravejado de tiros. A polícia disse ter disparado 125 vezes, com 3 armas.

Semana passada, assistimos a cenas do marido espancando a mulher. O agressor postou o fato em suas redes sociais e foi apoiado em vários comentários. Em junho, foi publicado o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública constando que 8 mulheres por minuto foram agredidas em 2020 e que o Brasil já contava com 1338 feminicídios durante a pandemia.

A prática da surra em crianças, os assassinatos das pessoas trans, o fuzilamento do suspeito sem o devido processo jurídico em um país em que não há pena de morte, o espancamento da mulher pelo marido, enfim, esse roteiro há muito conhecido é acompanhado por olhos e boca ávidos pelo sangue que deve ser continuamente derramado para aplacar a dificuldade de cada sujeito em lidar com sua história pessoal, seus conflitos internos e os obstáculos em superá-los. Cotidianamente, convivemos com a mãe que bate em seu filho, ouvimos pelas paredes finas do apartamento o vizinho abusando física e psicologicamente de sua esposa e filhas, escutamos as piadas no bar sobre os membros da comunidade LGBTQIA+.

Sabemos que não há palavras para expressar a totalidade do que sentimos. Todos experimentamos os afetos escaparem aos limites de nossos corpos: algumas vezes, eles aparecem no olhar mais cândido; outras, parecem localizar-se na superfície da pele quando o frisson a percorre ao se lembrar daquele que é desejado. Há as lágrimas que jorram, tanto de alegria quanto de tristeza, sem que nenhum controle seja possível. O rosto se avermelha quando nos sentimos expostos ou insultados. Mas essas sensações não necessariamente passam à atividade motora. Antes da atividade motora, há a palavra.

A humanidade tem usado a palavra como intermédio do conflito há milhares de anos. Muito antes da estruturação formal da diplomacia, já enviávamos mensageiros com a missão de evitar o conflito físico. A palavra é usada como mediação do que transborda. E, aos poucos, fomos inventando meios de usá-la de forma eficaz. Temos os debates políticos, os sermões religiosos, as sustentações jurídicas, as discussões da relação (as famosas DRs), os pais que explicam aos filhos suas decisões. Quando calamos um dos lados, os debates políticos são tomados por discursos autoritários, os sermões religiosos tornam-se proselitismo religioso, as sustentações jurídicas são substituídas pelas execuções, as DRs culminam em feminicídios e a educação passa a ser baseada em espancamento e morte.

Uma sociedade que elege aquele que elogia o torturador e apoia alguém que diz que aquele que diverge deve ser calado e exterminado, há muito esqueceu que a palavra é mediadora. Passou-se do rosto enrubescido ao movimento do soco, sem mediação. Nossas palavras já não são instrumentos primordiais na relação com nosso semelhante: do rosto que se avermelha de raiva ao soco no qual termina o movimento de nosso braço e à arma carregada que levamos na cintura, é um pulo. Gostaria de dizer que estamos quase na barbárie, ainda sendo possível conter a marcha da violência. Mas seria mentira. Já chegamos. A criança, a mulher, as pessoas da comunidade LGBTQIA+, os que foram sumariamente executados, são todos corpos exilados da palavra e do direito à própria existência e mostram que já vivemos a barbárie. Mesmo assim, sigo aqui, não sozinha, a procurar palavras que medeiem tamanha dor.

*Fernanda Zacharewicz, psicanalista, doutora em Psicologia Social pela PUC/SP e editora na Aller

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.