A bandeira de Israel na Avenida Paulista

A bandeira de Israel na Avenida Paulista

Ruben Sternschein*

17 de setembro de 2021 | 06h00

Ruben Sternschein. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A Independência do Brasil foi celebrada em São Paulo em duas frentes: uma a favor do presidente Bolsonaro, na Avenida Paulista; a outra, no centro da cidade, lhe era contrária. Chamava a atenção a presença na Paulista de algumas bandeiras do Estado de Israel. Como cidadão israelense com residência permanente há mais de uma década no Brasil, rabino, educador e integrante da liderança da comunidade judaica paulistana, gostaria de garantir alguns esclarecimentos.

As bandeiras de um país representam um estado independente, cuja soberania se limita às suas fronteiras. Israel não tem qualquer pretensão de interferir na política interna brasileira.

A colocação dessas bandeiras não foi coordenada com a embaixada, nem com o consulado, ou com o governo de Israel.  A presença das bandeiras tampouco representa de algum modo o povo israelense. Tenho certeza de que nenhum de meus conterrâneos se sentiria confortável com a ideia de ter sido supostamente representado dessa forma, nesse lugar, nesse momento, sem que seus representantes sequer tivessem sido consultados.

Embora seja bonito que segmentos da população brasileira sintam alguma identificação com o estado de Israel, é extremamente importante que essas mesmas pessoas tomem os cuidados necessários para não arrastar o país – que dizem admirar – a um posicionamento sobre políticas locais que lhe é alheio.

Acima de tudo, e para evitar qualquer dúvida, cabe salientar que:

  1. Israel é um país que preza a ciência e foi o primeiro e mais intensamente vacinado contra a COVID no mundo;
  2. Israel se destaca como a única democracia de sua região, a qual respeita zelosamente desde sua criação, e é caracterizado por cientistas políticos como uma “democracia extrema”;
  3. Em seus setenta e três anos, nenhuma das mais acaloradas discussões políticas israelenses questionou a democracia em si, nenhum governo em exercício ameaçou de anulá-la, nenhum governo que perdeu eleições contestou sua legitimidade;
  4. O exército israelense jamais tomou o poder, nem poderia fazê-lo, pois é um exército popular integrado por todos os segmentos da sociedade civil, isto é, todas as ideologias. Ex-militares já integraram partidos opostos. Assim também está conformada a polícia.

É provável que parte da motivação que gerou a colocação das bandeiras israelenses na Avenida Paulista se deva a alguma identificação com certa leitura da Bíblia ou com determinada imagem do judaísmo. Nesse sentido cabe lembrar que:

  1. A diversidade de poderes, o equilíbrio entre eles e o respeito pelos seus respectivos limites são características centrais nas administrações políticas que aparecem tanto na Bíblia quanto nas fontes judaicas clássicas posteriores. É o próprio Deus quem manda Moisés dividir e descentralizar sua hegemonia, distribuindo suas atribuições entre chefes e representantes de tribos, juízes, policiais e profetas (Números 11:16-19, Deuteronômio 16:18). Deus, como depois o profeta Samuel, expressa grande receio pela monarquia diante da possibilidade de alguém exercer um poder exacerbado e centralizado, e estabelece regras destinadas a limitar esse poder. Segundo essas regras, o rei não está acima da lei, não é a lei e não determina a lei. O detentor do poder serve ao povo e cumpre a lei antes e com mais cuidado do que todos. Ele não é Deus, não representa Deus e não estabelece o relacionamento com Deus. O rei é quem mais deve vigiar e ser vigiado na sua possível tendência a privilégios e abusos (Deuteronômio 17:14-20, I Samuel 8).  Na Bíblia convivem reis, profetas, sacerdotes e juízes. Cada um na sua parcela de poder. Sem invadir o espaço alheio, sem se deslegitimar.
  2. Na época talmúdica, quando os judeus contavam com certa autonomia sob os impérios que os governaram, criaram dois poderes que deveriam se controlar mutuamente: o judiciário e o legislativo, os quais se mantiveram separados enquanto durou sua autonomia.
  3. O Talmude, símbolo das fontes judaicas pós-bíblicas clássicas, caracteriza-se pela pluralidade de ideias e pelo debate propositadamente inconclusivo e enfatiza o valor da diversidade que não precisa de uma verdade única. A passagem talmúdica mais representativa conta que, diante de uma controvérsia, Deus diz: “tanto estas como aquelas, são as palavras do Deus vivente” (Talmude Babilônico, Tratado Eruvin 13b). Ou seja, para que a divindade esteja viva, deve haver espaço para uma pluralidade respeitosa.
  4. O judaísmo prega também a igualdade divina de todas as pessoas, independentemente de qualquer diferença de sexo, cor ou crença (Gênesis 1:26).

As bandeiras de Israel na Avenida Paulista não representam Israel – qualquer que seja seu governo – nem seu povo, nem o judaísmo. Todos eles estão fora do debate local. Embora seja uma alegria conferir qualquer tentativa de aproximação à nossa cultura ancestral e a nossos valores milenares, eles, acima de tudo, pregam o respeito à vida, à liberdade, à democracia, à pluralidade, à ciência e aos Direitos Humanos.

*Ruben Sternschein é rabino da Congregação Israelita Paulista e doutor em Filosofia Judaica pela USP

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