A bandeira de fumaça

A bandeira de fumaça

Angel Machado*

07 de outubro de 2020 | 03h15

Angel Machado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

É a primeira vez na história da política brasileira que o presidente é um erro circunstancial, bem como alguns ministros desajustados, e essa inabilidade foi eleita com a bandeira populista e com o aval dos que queriam apenas retirar um determinado partido do poder. Num país com dimensão continental, a “velha política” continua a ser o método.

A imprensa está enfadonha com a maledicência governamental. Na prática, o quarto poder está condicionado ao sistema especulatório pela sobrevivência, porque a alienação já atinge os benquistos institucionalistas cheios de boas intenções, com esse marasmo circunstancial em que todos estão vivendo.

Faz parte de um projeto ambicioso manter a cultura e a educação fora do alcance — principalmente —, dos jovens que, aliás, merecem uma nação da qual se orgulhem, porque é dever do Estado dar-lhes essa garantia. Mas, em virtude dos últimos acontecimentos, desde a eleição (2018), faz sentido evocar o antropólogo, Darcy Ribeiro e seu livro Povo Brasileiro sobre a questão crucial que, provavelmente, muitos brasileiros já se interrogaram: “por que o Brasil não deu certo?”.

É nesse Brasil que está confinada a nossa memória encoberta de rancor e soberba. A rejeição pela política é a prova do “toma lá, dá cá”, que resultou no roubo de uma das maiores virtudes brasileira: a honestidade. Gostava de escrever para os que, também, não leem – e justificam sua ignorância em nome da sobrevivência.

O povo vota com o que tem. O seu desinteresse é muito apropriado para os políticos que fazem a má política. Não admitir essa realidade faria do Brasil uma incógnita que assustaria muito protagonista que se alimenta desta entropia social. Embora exigir mudança seja uma bandeira revolucionária, o seu efeito tem sido um conta-gotas realizado por pessoas comuns que se alimentam de esperança, de que destaco a tentativa de salvar os animais no Pantanal, o desmatamento na Amazônia e a corrupção generalizada.

Num país latino onde se tem paixão pelo futebol e pelo carnaval, mas que se omite em questões de — ampla e transversal — importância como a cultura, o simbolismo popular, a educação, a origem, a Amazônia, os índios – é inadmissível que desdenhe temas fundamentais como esses para o desenvolvimento do país.

Sugestionar uma figura utópica como líder, mesmo relegando ao passado todas as injustiças, o território movediço continuará a ser o planalto central que representa a luta incessante pelo poder e o dinheiro. Parafraseando Darcy Ribeiro, o Brasil é dos brasileiros, dos cativos, miscigenados, iletrados, pobres em sua grande maioria, resistentes, e genuinamente com alma e não merecem um país de mentirosos. As pessoas precisam saber qual é o lado certo, senão, tudo o que elas fizerem resultará na cômoda insatisfação do “não é comigo”. A corrupção não deve ser uma regra, assim como o otimismo não deve ser uma exceção.

*Angel Machado, jornalista e escritora

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