A avaliação psicológica no contexto do trânsito

A avaliação psicológica no contexto do trânsito

Fábio De Cristo*

10 de junho de 2021 | 04h00

FOTO: GABRIELA BILO/ESTADÃO

A avaliação psicológica aplicada para condutores de todo o país têm sido realizada para diversas finalidades, como nas clínicas (para diagnosticar transtorno de estresse pós-traumático decorrente de acidentes de trânsito e dar suporte às intervenções em psicoterapia) e nas empresas de transporte (para selecionar motoristas de ônibus e realizar diagnóstico organizacional sobre estresse e qualidade de vida no trabalho).

Além dessas, existe também a avaliação psicológica pericial, conforme inserida no processo de habilitação de condutores. Essa é uma atividade tradicional do psicólogo do trânsito, regulada por leis e resoluções, e exercida pela maior parte (76,7%) desses profissionais, conforme pesquisa nacional do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas, divulgada nos anos de 2009 e o mais recente em 2018.

Nesse caso, os psicólogos trabalham em clínicas credenciadas pelos Departamentos Estaduais de Trânsito (DETRANs) na prestação desses serviços, sendo responsáveis por avaliar pessoas para a obtenção da Autorização para Conduzir Ciclomotores (ACC) e da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e para a renovação, adição ou mudança de categoria.

O trabalho pode envolver ainda as juntas psicológicas, instauradas pelos órgãos de trânsito para julgar os recursos dos candidatos referentes ao processo de avaliação.

Existem pelo menos quatro passos para alcançar os resultados esperados da avaliação psicológica:

Definir os objetivos da avaliação (como obtenção e renovação, adição ou mudança de categoria da CNH) e escolher os instrumentos e as estratégias adequadas (entrevistas diretas e individuais, testes psicológicos, dinâmicas de grupo), sendo essa uma prerrogativa do psicólogo, desde que devidamente fundamentados na literatura científica psicológica e nas normativas vigentes do Conselho Federal de Psicologia (CFP);

Coletar informações, como tomada de informação, processamento de informação, tomada de decisão, autoavaliação/comportamento e traços de personalidade;

Integrar as informações e desenvolver as hipóteses iniciais;

Indicar as respostas e comunicar os resultados (se estão aptos, inaptos temporários ou inaptos), por meio de entrevista devolutiva e do documento escrito, por exemplo, laudo ou atestado, conforme se aplicar ao caso;

Cada uma dessas etapas requer desenvolvimento e integração de diversas competências. Especificamente sobre a primeira etapa, que inclui a seleção de testes e técnicas, existem alguns norteadores. Assim, o universo de testes e técnicas que serão possivelmente selecionados começa a ser mais delimitado em função de alguns aspectos, dentre eles:

1) Finalidade da avaliação
As pessoas que o procurarão serão somente aquelas pessoas com as seguintes finalidades: obter/renovar/mudar a sua CNH. Nessa avaliação pericial no processo de habilitação, em que o psicólogo contribui socialmente para a segurança viária, não há espaço para outras demandas a serem investigadas nesse momento específico, embora o profissional precise encaminhar a pessoa para outros profissionais para investigação, por exemplo, de algum transtorno mental ou comprometimento neuropsicológico.

2) Características do candidato
Idade, escolaridade e presença de deficiência física. Na avaliação para a CNH, jamais o psicólogo atenderá candidatos abaixo dos 17 anos para aquisição da carteira, uma vez que não é permitido por lei. Adicionalmente, a seleção dos testes psicológicos envolve a integração de outros conhecimentos que tornam a tarefa mais complexa.

Em conjunto, todos esses conhecimentos e habilidades embasam o que pode ser chamado de seleção dos testes psicológicos fundamentada em aspectos técnicos e científicos da psicologia, conferindo, portanto, mais autonomia, num sentido amplo da palavra, em vez das escolhas feitas exclusivamente com base nos hábitos de usar determinado instrumento aprendido na graduação, no baixo custo, na tradição ou na recomendação de uma pessoa mais experiente. Nesse caso, refletindo uma baixa autonomia do profissional e maior dependência.

Uma vez selecionado o teste psicológico, o trabalho não para por aí. Será preciso também o psicólogo do trânsito manter-se atualizado na área e aprimorar as habilidades no uso dos testes e técnicas psicológicas e no raciocínio clínico.

Afinal, nunca cessam as pesquisas sobre os processos psicológicos associados ao comportamento (seguro/inseguro) no trânsito e sobre os testes que podem ser usados. Isso porque, especificamente sobre os testes, os seus criadores e editoras precisam continuamente aperfeiçoá-los e demonstrar evidências de que são bons para medir ou predizer fenômenos psicológicos e comportamentais.

Desse modo, a existência do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI) não significa que o profissional irá apoiar-se exclusivamente nele para sua escolha. Manter-se atualizado nos estudos dos testes usados frequentemente nas avaliações fará com que se possa extrair maiores informações dele para melhor fundamentar as conclusões do processo pericial, como também as orientações e os encaminhamentos. Com base no que foi discutido, percebe-se que o universo da avaliação psicológica no contexto do trânsito é amplo, sendo nosso dever estarmos cada vez mais preparados para cumprir nossa missão perante a sociedade, de contribuir com a segurança no trânsito e com a saúde e o bem-estar das pessoas no que diz respeito à mobilidade.

*Fábio De Cristo é doutor em psicologia social, do trabalho e das organizações pela Universidade de Brasília (UnB). Professor adjunto na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Desenvolve pesquisas sobre saúde mental no ensino superior e sobre o comportamento no trânsito, com foco na investigação, a partir da psicologia ambiental e da avaliação psicológica

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