A ‘assombrosa’ evolução patrimonial do ‘Rei Arthur’, segundo Procuradoria

A ‘assombrosa’ evolução patrimonial do ‘Rei Arthur’, segundo Procuradoria

Força-tarefa da Operação Lava Jato no Rio identifica o incrível salto dos ativos do empresário Arthur César de Menezes Soares Filho, foragido da Justiça, durante o governo do amigo Sérgio Cabral, já na cadeia e condenado a 59 anos de prisão

Julia Affonso e Luiz Vassallo

12 de outubro de 2017 | 05h00

Foto: Reprodução da denúncia do Ministério Público Federal

A força-tarefa da Operação Lava Jato no Rio descobriu uma ‘assombrosa evolução patrimonial’ do empresário Arthur César de Menezes Soares Filho, o ‘Rei Arthur’, no período em que seu amigo, Sérgio Cabral (PMDB), governou o Rio (2007/2014). De um patrimônio de R$ 16,38 milhões, declarado em 2006, quando Cabral se elegeu pela primeira vez, a fortuna do ‘Rei Arthur’ chegou a incríveis R$ 238 milhões em 2015, ano seguinte ao final do mandato do peemedebista.

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‘Rei Arthur’ é foragido da Justiça. Cabral está preso, desde novembro de 2016 – denunciado 15 vezes pela Procuradoria da República, o ex-governador já pegou duas condenações judiciais que somam 59 anos de cadeia.

Foto: Reprodução da denúncia do Ministério Público Federal

Os investigadores apontam ‘colossais contratos’ firmados pelo governo Cabral com empresas do ‘Rei Arthur’.

“É evidente assim o grande interesse de Arthur Soares no pagamento de vantagens indevidas ao ex-governador Sérgio Cabral, diante dos expressivos contratos firmados com o Estado do Rio”, assinala a Procuradoria da República.

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Os dados sobre o avanço patrimonial do ‘Rei Arthur’ constam da nova denúncia, a 15.ª, contra Cabral, levada à Justiça Federal nesta terça-feira, 10. A acusação aborda especificamente uma propina de US$ 10,4 milhões supostamente paga pelo empresário ao ex-governador.

Os investigadores descobriram um elo muito próximo de Cabral e ‘Rei Arthur’ – apenas uma de suas empresas, a Facility Segurança Ltda possui contratações com a administração estadual do Rio que somam R$ 248, 69 milhões.

Um único contrato, vigente em 2015, foi fechado com a Fundação Estadual de Saúde ao valor de R$ 71,56 milhões para ‘serviços de vigilância’. Outro, de R$ 32,64 milhões, foi firmado em 2014 com a Secretaria da Educação para ‘prestação de serviços de segurança armada e desarmada’.

Os procuradores da força-tarefa da Lava Jato rastrearam o patrimônio do ‘Rei Arthur’ na França (onde ele mantém uma empresa imobiliária), nas Ilhas Virgens Britânicas, no Reino Unido e nos Estados Unidos, ‘onde possui diversas empresas e possivelmente onde hoje reside’.

Em 2013, segundo a Receita, o empresário integralizou o crédito que possuía com a Matlock Capital Group, nas Ilhas Virgens, R$ 47,7 milhões, em seu capital social. Integralizou cotas de capital na KB Holdings Group Inc, Ilhas Virgens, com as cotas de capital que possuía na Matlock Capital Group Limited, R$ 200,74 milhões.

“De acordo com os rendimentos declarados por Arthur Soares, nota-se uma assombrosa evolução patrimonial logo assim que Sérgio Cabral assume o governo do Estado do Rio de Janeiro, indicando, portanto, o benefício econômico auferido com o pagamento da propina”, destacam os procuradores.

A força-tarefa afirma que ‘Rei Arthur’ criou ‘uma complexa estrutura societária, visando a montar uma blindagem patrimonial e utilizar interpostas pessoas, com o objetivo nítido de dificultar a identificação do proprietário de fato das empresas’.

Relatório de Inteligência Financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras)  aponta 156 operações financeiras suspeitas, ‘incluindo saques em espécie em valor substancial, realizadas por Arthur Soares’.

Segundo o documento, no dia 11 de dezembro de 2007, ‘Rei Arthur’ fez um saque de R$ 500 mil em dinheiro vivo.

“As provas são cabais e não deixam dúvidas de que Arthur Soares é membro ativo da organização criminosa capitaneada por Sérgio Cabral, integrando o chamado núcleo econômico da organização”, afirmam os nove procuradores da força-tarefa.

“Arthur Soares dominava os procedimentos de licitação no setor de alimentação, decidindo quais empresas seriam as vencedoras, de acordo com seus interesses”, segue a acusação. “O ex-governador Sérgio Cabral levou para outros contratos mantidos com o Estado do Rio o mesmo esquema de oferecimento de facilitações em troca de propina até então implementado nos contratos de construção civil, de fornecimento de equipamentos e produtos médico-hospitalares e do setor de transportes públicos.”

Ainda segundo a denúncia, ‘nesse cenário, Arthur Soares abasteceu financeiramente durante vários anos a organização criminosa comandada por Sérgio Cabral, praticando conduta consistente na disponibilização e entrega de valores no exterior, fraudes a licitações e também na ocultação e dissimulação da natureza, origem, localização, disposição, movimentação e propriedade desses valores, os quais eram provenientes de infração penal’.

Às páginas 56 e 57 da denúncia, a Procuradoria anexou a agenda de ‘Rei Arthur’, recheada de reuniões com o então governador, o que reforça a linha da investigação sobre a amizade entre o empresário e Sérgio Cabral. O documento revela 17 encontros e almoços, inclusive no Palácio Guanabara, sede do Executivo fluminense.

Segundo a Procuradoria, o depoimento do delator Vivaldo Filho ‘é esclarecedor e revela que os pagamentos de propinas feitos por Arthur Soares a Sérgio Cabral não se deram apenas no exterior, por meio de contas offshore, mas também por meio do tradicional meio de recebimento de vantagens indevidas, em dinheiro em espécie’.

A reportagem não localizou a defesa do ‘Rei Arthur’. O espaço está aberto para manifestação.

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