A arte do possível e o quanto aguentamos apanhar

A arte do possível e o quanto aguentamos apanhar

Marco França*

02 de junho de 2020 | 12h00

Marco França. FOTO: DIVULGAÇÃO

Creio que uma boa parte dos leitores deve ser familiar à metáfora do Patinho Feio e do Cisne Negro, mas vale uma rápida passagem por ambas, a primeira se refere a nossa capacidade ou incapacidade humana de prever tudo, a segunda, de se achar o mais feio da turma. Nem o mais sucedido dos capitalistas daqui ou do hemisfério norte tiveram sua vida repleta de sucessos e sem contratempos. Seria muita arrogância achar que a covid-19 não viria para tirar todos dos “já” desconfortáveis assentos da classe coach da Terra Brasilis.

Existe no Brasil um problema rocambolesco que envolve juros bancários altos na ponta do tomador, carga tributária desajustada face aos serviços entregues e uma consequente margem operacional das empresas muito apertada, a qual leva o empresário a fazer tratamentos heterodoxos nos negócios e seus balanços contábeis para sobreviver dada a intermitência de demanda e os já mencionados juros estratosféricos. Esta conta chega mais tarde quando ele quer ou necessita se relacionar com bancos, institucionais ou investidores gringos. A sugestão aqui não se aplica a meia dúzia de fazendeiros de soja que estão na combinação perfeita de câmbio, commodities e beligerância entre Tio SAM e Xi, que foca a sua compra de produtos no Brasil em detrimento dos EUA.

A mídia tem alardeado uma série de programas para o setor de serviços e o de turismo, que tem causado uma mistura de ansiedade, euforia e decepção. Pronampe e Projetur, programas focados ao pequeno e médio empresário e ao setor de serviços e turismo em geral, com mais de R$ 20 BI de desembolso programado, ainda não saíram do papel, pois precisam de portarias e aprovações ministeriais e, após isto, de um “azeitamento com bancos” (SIC) para sua operacionalização. Por outro lado, o que vimos na prática foram aumentos de spread, reduções de oferta na base e aumento de colaterais para liberação de empréstimos. Os Fundo Garantidor de Investimentos (FGI) e Fundo Garantidor de Operações (FGO) também não vingaram até agora e são vitais para “desempoçar” as operações. Os bancos tradicionais também recolheram o flap e simplesmente sentaram em cima do dinheiro. A falta de visibilidade traz a profecia autorrealizável, dado que ninguém empresta, todo o empresariado afunda e quando a covid-19 passar, não tem mais ninguém para contar a “estória”.

Não resta outra atitude ao empresariado se manter resiliente, manter todos os cadastros com bancos perfeitamente atualizados com algumas ressalvas importantes, Balanços com Patrimônio Líquido negativo ou pendências com operações menores são impeditivos para a maior parte dos produtos a caminho. Colaterais mais clássicos como, faturas performadas, imóveis e terrenos se somam hoje a travas e domicílios bancários com agenda de cartão, direitos creditórios e contratos não performados. Prepare sua documentação, incluindo o kit “ternura”, qualificação de sócios, impostos de renda pessoa física e jurídica dos últimos três anos e últimas alterações contratuais e “vá à luta”. Quem não for lembrado pelo gerente e não visitar semanalmente, virtualmente ou presencial, não será lembrado. Os recursos que serão liberados serão infinitamente inferiores à demanda. A Caixa Econômica Federal tem sido diligente e feito um bom trabalho em algumas áreas e deve ser um dos principais canais neste sentido.

Atualmente também existem marketplaces de crédito que podem ajudar o pequeno e médio empresário a reagir, elas não arrefecem na análise e garantias, mas garantem capilaridade e estrutura, principalmente para quem não tem muito tempo ou traquejo para captação. Plataformas de intermediação como FINPASS, GoCREDIT, Arian são algumas delas. Diversos Family Offices também operam FIDC -fundos de recebíveis- que também são opção aos bancos tradicionais. Não esperem milagre dali, mas sua empresa terá maior velocidade em se fazer presente ante as oportunidades de crédito. Infelizmente o cisne negro chegou para deixar nu o mais feio da classe e o mais bonito também.

Mãos a obra, se existe alguma coisa que aprendemos com o Brasil é que ele nunca é maravilhoso, nem feio, como se pinta.

*Marco França é engenheiro e sócio-diretor da AUDDAS Consulting

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